Os padroeiros
Antero de Quental || Thomas More || John Newman || Epicuro

Antero de Quental
Para o micaelense da geração liceal de 50 que escreve estas
páginas, Antero é a figura tutelar por excelência,
depois acompanhada por outros que também nos fazem o que somos.
Antero Tarquínio de Quental - uma velha discussão em que
ele, assinando das duas formas, não ajuda: de Quental ou do Quental?
- nasce em Ponta Delgada a 18 de Abril de 1842, filho de família
fidalga e abastada, descendente de uma das mais antigas famílias
dos colonizadores micaelenses. O seu pai, Fernando de Quental, foi um
dos liberais que, em 1832, desembarcaram no Mindelo. O avô
paterno, André da Ponte Quental da Câmara e Sousa, destacara-se
também pelas suas convicções liberais. Fora amigo
de Bocage e com ele partilhara o cárcere. Militara depois na guerrilha
contra os invasores franceses. Será, em 1822, signatário
da Constituição, como deputado por São Miguel.
Os primeiros estudos que se lhe conhecem são com António
Feliciano de Castilho, ainda ele nem imaginava o "Bom senso e bom
gosto", prosseguidos depois em Lisboa quando Castilho deixa Ponta
Delgada. Em 1858 matricula-se em Coimbra, mas a sua vida universitária
é logo marcada pela rebeldia e por uma pena de oito dias de prisão.
Já antes tinha escrito os primeiros versos, escondidos numa relação
sempre muito fraterna com o seu irmão André. Mas é
em Coimbra que se estreia verdadeiramente, com os Prelúdios
Literários e as Leituras Populares. É uma
figura marcante da vida coimbrã: é célebre a descrição
de Eça que, perante um grupo que ouvia uma figura imponente de
barba loira e ar arrebatado, pergunta quem é e lhe respondem que
é o Santo Antero.
Concluído o curso, tenta alistar-se no exército
de Garibaldi, mas acaba por embarcar para Ponta Delgada. Regressado a
Lisboa, organiza em 1871 as Conferências do Casino, inauguradas
com a sua célebre "Causas da decadência dos povos peninsulares"
e logo proibidas pelo seu conterrâneo Duque de Ávila. Desenvolve
entretanto a sua cultura socialista mas não fica pelos livros,
vive em Paris como simples tipógrafo. Regressado a Portugal, com
estadias irregulares em Ponta Delgada e em casas de província de
alguns amigos, fortalece as relações com os que virão
a ser a geração de 70: Eça, Oliveira Martins, Guerra
Junqueiro, Luís de Magalhães (este mais grande amigo que
homem de letras, a par de Germano Meireles, amigo desde Coimbra e cujas
filhas vem a adoptar), Alberto Sampaio e Ramalho Ortigão. Em 5
de Junho de 1891, parte definitivamente para Ponta Delgada, para um efémero
e frustrante regresso às origens. No dia 11 de Setembro, compra
um revólver e, às 20 horas, no lado norte do Campo de S.
Francisco, suicida-se com dois tiros num banco de jardim que, ironicamente,
tinha escrito no muro por detrás a palavra Esperança. Talvez
tenha dado um último olhar para o lindo e enorme metrosídero, se é
que ele já lá tinha sido plantado.
Na vida e obra de Antero avulta, na sua impetuosidade mas clarividência
e modernidade de jovem, a polémica com o seu velho mestre Castilho,
"Bom senso e Bom gosto", catilinária contra a poesia
romântica decadente. São páginas sublimes, só
ofuscadas por um pequeno erro infeliz - quem os não tem? –
ao evocar a cegueira de Castilho, o que lhe valeu um duelo com Ramalho,
depois seu grande amigo. É certamente a maior polémica literária
da nossa história.
A sua obra poética é muito extensa, avultando as "Odes
Modernas" e, principalmente, os sonetos. É nos
sonetos que melhor nos aparece o Antero multifacetado, mas também
a vítima da sua doença bipolar, oscilando entre o entusiasmo
e a depressão. Definem bem os ciclos de vida de Antero, com as
fases bem caracterizadas por António Sérgio: da expressão
lírica ao amor paixão; do apostolado social; do sentimento
pessimista; do desejo de evasão; da morte; do pensamento de Deus;
da metafísica; da voz interior e do mor puro sempiterno. Uma coisa
os une, a todos os sonetos, única na poesia portuguesa: são
uma expressão de sentimentos, muito variáveis, mas principalmente
de uma filosofia sempre mantida, lúcida, ligada à sua própria
prática de vida e, acima de tudo, de transcendente generosidade.
Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busco anelante
O palácio encantado da Ventura!
Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura...
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formosura!
Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado...
Abri-vos, portas de ouro, ante meus ais!
Abrem-se as portas d'ouro, com fragor...
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão - e nada mais!
(Magnífico retrato de Columbano)

Thomas More
More é um dos meus padroeiros pela sua integridade
intelectual levada ao extremo: morre injustamente mas aceita a sentença
de morte porque ela faz parte do seu sistema de valores. Antes dele, só
Sócrates. Um homem que morre pelas suas ideias. Bem podia ser acompanhado
aqui por outro: Giordano Bruno.
Thomas More nasceu em Londres, em 1478, filho de um pai
também advogado e prestigiado burguês da City, com vários
cargos de destaque. A sua primeira educação faz-se como
pajem do cardeal Morton, de Cantuária, na época uma quase
corte privada de alta qualidade intelectual. Faz em Oxford os seus estudos
de artes, em plena época da emergência dos estudos clássicos,
de latim e grego, tendo Colet como principal mentor. Convive com o escol
do humanismo britânico, mas, de entre os seus amigos, destaca-se
Erasmo. É a More que é dedicado o Elogio da Loucura (que,
em grego, é moria, a sugerir o nome de More). À maneira
inglesa, em que a "common law" não era ensinada na universidade,
os seus estudos jurídicos são feitos no Lincoln's Inn, em
Londres. A sua carreira jurídica e política é fulgurante.
Como jurista, ultrapassa o próprio pai, embora nunca deixasse de
violar o cerimonial de Westminster afastando-se do cortejo oficial para
lhe ir beijar a mão.
Armado cavaleiro em 1521 por Henrique VIII, torna-se um
dos mais influentes membros da corte e membro do conselho privado do rei.
Com a queda em desgraça do poderoso cardeal Wolsey, sucede-lhe
como Lord Chanceler (ministro da Justiça).
Produziu uma extensíssima obra, tendo fama de fácil
repentista em poesia latina e, desde os tempos de escola, autor de comédias,
autos e representações de corte. Ao contrário da
ideia geral que se pode fazer dele, como homem de respeito e sisudez,
os seus epigramas são de enorme mordacidade e, pasme-se, recorrendo
frequentemente a linguagem obscena. Mas a obra que o tornou eterno, para
além da notável "História do rei Ricardo
III", é a "Utopia", um livro que descreve
uma ilha fantástica em que contrapõe a visão escolástica
a um conjunto de ideias que o futuro veio a confirmar. É a apresentação
de uma sociedade ideal, onde haveria justiça e igualdade para todos
os cidadãos. Palavra inventada, foi essa obra-prima que introduziu
a palavra utopia nas línguas europeias.
Uma coisa o afasta do seu amigo Erasmo. More era intransigente defensor
da ortodoxia católica contra a vaga da reforma. De facto, a sua
chancelaria ficou marcada, infelizmente, pela sua perseguição
de heréticos e dos seus trabalhos. O grande paradoxo da vida de
More é o de ser um homem que é hoje visto como um libertador
e um livre-pensador mas que foi igualmente um fanático religioso.
Aí começa o seu destino trágico. Quando
Henrique VIII funda o anglicanismo pelo motivo bem pouco religioso de
se poder casar com Ana Bolena, exige que todos os nobres prestem juramento
à nova rainha. More recusa e cai em desgraça. O esforço
maior dos seus últimos anos de vida, em que tenta desesperadamente
conciliar o impossível, o serviço público (cuja ética
podemos dizer que nasce com ele, recordando Cincinato) e a espiritualidade
privada, mostra-se inglório. Em 1534, por aquele motivo, é
acusado de traição, preso e sentenciado por decapitação
em 1535 (depois de o rei, com algum remorso, ter transformado nessa forma
mais aceitável de morte uma sentença terrível que
me dispenso, por horror, de transcrever aqui).
As suas últimas palavras (William Roper), pequeno
discurso socrático de quem acha que o seu destino individual faz
parte do sistema que defende:
De acordo com o desejo do rei, falou brevemente. Pediu aos presentes
que testemunhassem com ele que ia ali sofrer a morte em e pela fé
da Santa Igreja Católica. Pediu aos que ali estavam que rezassem
por ele neste mundo, como ele rezaria por eles no outro. Pediu-lhes
então insistentemente que rezassem pelo rei, que prouvesse a
Deus dar-lhe bom conselho, afirmando morrer como bom servidor do rei,
mas de Deus primeiro. Ajoelhou diante do cepo e recitou as palavras
do salmo que começa com "Tem piedade de mim, ó Deus,
segundo a tua amorosa bondade".
Pôs-se então de pé e, segundo o costume,
foi a vez de o carrasco ajoelhar para lhe pedir perdão e a bênção.
More beijou-o, e ter-lhe-á dito: "Vais fazer-me neste dia
o maior favor que qualquer mortal poderia fazer-me. Anima-te, homem,
e não tenhas medo do teu ofício. O meu pescoço
é muito curto; tem cuidado, pois, não vás falhar
o golpe e envergonhar a tua profissão".
(Retrato de Holbein)


John Newman, cardeal
Os padroeiros anteriores são de cultura geral e bem conhecidos.
Este não é tanto, mas é figura indispensavelmente
venerável para quem quer reflectir sobre a educação
superior. "Liberal education", já ouviram falar? É
o ensino superior concebido como alta educação nas ciências
e nas humanidades, com a versatilidade necessária para educar
no que o indivíduo quer, construindo pessoalmente a sua cultura
e sem demasiadas preocupações utilitaristas, de treino
para uma profissão especializada. Marca tanto a noção
de "well educated gentlemen" da universidade inglesa que
hoje, um século passado, ainda se pode considerar rigoroso
o termo newmaniano
para o sistema universitário inglês (ou, mais correctamente,
de Cambridge e Oxford).
Há dois Newmans, que não é fácil integrar.
Um é o clérigo anglicano, reformador, depois convertido
ao catolicismo. O outro é o teorizador da universidade. Comecemos
pelo primeiro. Nasce em Londres, em 1801 e aí morre em 1890. Em
1831, é capelão da Universidade de Oxford e aí dá
alma ao que veio a chamar-se o movimento de Oxford, reformador da teologia
e da prática cristã. Tem, durante longos anos, uma acção
persistente a favor de reformas na sua Igreja Anglicana. Em 1841, a sua
vida religiosa atinge uma crise e publica o seu "Tract
90", demonstrando que os trinta e nove artigos da Igreja Anglicana
afinal são compatíveis com o catolicismo. Sem sucesso, converteu-se
ao catolicismo. Para alguns, foi o precursor, um século antes,
do concílio Vaticano II. Com essa conversão, teve quase tantos problemas com o intolerante Pio IX como tinha antes. Só muito mais tarde o novo papa, Leão XIII, reconheceu o seu valor e o elevou ao cardinalato.
Mas não é este Newman o meu padroeiro, é o outro,
o que, enquanto capelão de Oxford, também produziu uma
grande obra de reflexão sobre a universidade, compendiada no
seu livro
"The idea of a University" (1852, a época em
que a nossa Universidade de Coimbra estagnava, apesar da reforma setembrista).
Newman, enquanto viveu em Oxford, reflectiu profundamente sobre a universidade
e deu corpo teórico à chamada educação
liberal, a educação superior que dá o substracto
cultural e a elasticidade mental para a adaptação a
todas as situações concretas de vida e que se opõe à
noção utilitarista da formação universitária,
a que prepara estritamente para uma actividade profissional.
Escrito entre 1852 e 1858, este livro magistral está
datado, em alguns aspectos. Mas a discussão do binómio "education"
e "training" ainda tem muito de actual. Indispensável
na biblioteca de qualquer universitário, em tempos em que a universidade
está em risco (se já não o é) de ser apenas
uma fábrica "útil" de licenciados (doutores-salsichas).
É claro que, nos dias de hoje, não se pode perfilhar até
ao extremo a sua defesa intransigente da "educação
liberal" em relação à "educação
útil". Aliás, o próprio Newman incluía
na sua ideia de educação liberal o ensino do direito e da
medicina, tradicional desde a universidade medieval, e de novas profissões
da sua época, como a engenharia nascente, mas não identificando
obrigatoriamente a educação profissional com a educação
útil. Mas, relativizando as teses de Newman em termos das
missões actuais da universidade, ainda fica muito de importante
das suas ideias, principalmente se pensarmos no ensino das ciências
e das humanidades.
Newman avulta também como um mestre da prosa inglesa,
com o seu estilo simples, lúcido, claro e sempre convincente. É
assim um precursor do estilo directo de muita literatura anglo-saxónica.
It is well to be a gentleman, it is well to have a cultivated
intellect, a delicate taste, a candid, equitable dispassionate mind,
a noble and courteous bearing in the conduct of life - these are
the connatural qualities of a large knowledge, they are the objects
of a University.


Epicuro
Ensinado há 2300 anos: os maiores obstáculos à felicidade humana são o medo da morte e do castigo divino e podem ser vencidos por meio do conhecimento da natureza - hoje diríamos que pelo racionalismo científico e pelo correspondente materialismo filosófico; e até parece que Epicuro falou da "natureza física". E desde que satisfeitas as necessidades básicas, a felicidade é plenamente alcançável por um estado de espírito e uma atitude ética de “ataraxia”, a independência das perturbações da vida e da turvação pela paixão. A visão epicurista de autocontrolo mental, tranquilidade, de admiração pela maravilha do cosmos e do homem ainda podem ser hoje a base de um “humanismo moderno”.
Também não vale a pena a preocupação com o futuro. O futuro não depende inteiramente de nós, mas também não nos passa totalmente à margem. Não o devemos ver como qualquer coisa que vem inevitavelmente, também não como qualquer coisa que podemos determinar. O futuro não existe hoje, far-se-á por coisas de azar, outras por coisas que fazemos e só estas que nos devem merecer atenção. Banalidade, dirão. Mas escrito há tantos séculos?
O epicurismo é uma filosofia da responsabilidade - com grande sentido da ética e do dever - estreitamente articulada com a felicidade, em boa parte a felicidade de se saber e sentir o dever cumprido. Mas não se entenda isto como uma legitimação de todos os prazeres, à maneira dos seus adversários hedonistas. Também não, na luta entre as três grandes escolas da época, o extremo oposto, do desprendimento de todos os prazeres e quase que a valorização do sofrimento por parte dos estoicos. Um epicurista preza os prazeres mas hierarquiza-os, considerando que, para além dos "necessários", os prazeres importantes e duradouros são os prazeres de alma, os que dão tranquilidade e repouso espiritual.
O ideal humano de felicidade deve ser uma vida de cultivo da privacidade mas rodeada de amigos, com prazeres moderados e o mínimo de sofrimento, acima de tudo com tranquilidade de alma. Dito de forma muito comezinha, a felicidade de se adormecer bem, com a consciência tranquila em relação à ética do comportamento durante o dia mas também em relação à racionalidade e rigor intelectual do que se fez e se trabalhou. Admito que isto é um sinal de grande egocentrismo. Não interessa o prazer dos elogios alheios, nós é que somos os juízes das apreciações que nos dão prazer.
Em síntese: "o dever máximo é, ao mesmo tempo, saber rir, viver em filosofia, governar bem a sua casa, usar em bom proveito para si e para os outros tudo o que nos é próprio e nunca deixar de pensar em todas as fórmulas da sabedoria (Epicuro)".
Como creio que expliquei e se pode ver pela frase seguinte, atribuída a Epicuro, é aparentemente uma filosofia de felicidade, mas também de exigência: "Nada é suficiente para quem não se conforma com pouco".
Que pena quase não haver nada da sua autoria para ler. Mas, indirectamente, o “De rerum natura”.
De Epicuro, sobre Deus:
1) ou Deus quis eliminar o mal e não pôde; 2) ou Deus pôde eliminar o mal e não quis; 3) ou Deus não quis nem pôde; 4) ou Deus quis e pôde.
Então, 1) Deus não seria omnipotente; 2) Deus seria malvado, não infinitamente bom; 3) Deus seria tanto impotente como malvado; 4) e então Deus é incoerente e desinteressado, logo não infinitamente perfeito.
Logo, não existe deus omnipotente, infinitamente bom e infinitamente perfeito. Logo, como Deus só pode ser isto e não é, Deus não existe.
(escrito no séc. III AC)

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