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OS UNIVERSITÁRIOS CONHECEM O
POLITÉCNICO?
João Vasconcelos Costa
Universidades e politécnicos têm vivido em grande
divórcio e num clima de relações nem sempre saudável
e potenciador do papel que a cada subsistema cabe no conjunto do ensino superior.
Creio que a maioria dos universitários desconhece o politécnico
e descura a sua importância, quando não tem uma visão superior
e elitista. Eu próprio, escrevendo estas linhas, faço-o com pouco
conhecimento de causa ou duma perspectiva principalmente teórica, desconhecendo
muito da realidade do nosso ensino politécnico. Os professores do politécnico,
ao menos, conhecem a universidade, por onde passaram e fizeram os seus mestrados.
O ensino politécnico foi programado no início dos anos 70 e tornou-se
mais necessário pela explosão da procura do ensino superior, a
seguir à revolução, à qual a universidade não conseguia
dar resposta. Foi a época da grande massificação do ensino
superior, que fez entrar em jogo novos factores de desafio ao sistema: heterogeneidade
da população estudantil (no que se refere às competências
adquiridas, às expectativas de trabalho, ao "background" cultural);
falta de alteração de métodos e percursos formativos, com
consequências no insucesso escolar; assimetria territorial da oferta;
carência de recursos humanos, infraestruturais e financeiros; reivindicações
regionais para a instalação de novos estabelecimentos de ensino
superior.
Mas pode-se duvidar de que tenha havido total coerência e clareza de visão
na criação do politécnico. Ao reorganizar-se o sistema de ensino
após a revolução, reorganização consagrada na lei
de bases do sistema educativo, havia universidades, que todos sabiam o que
eram, mas também uma multiplicidade de escolas de nível intermédio
(as escolas de engenheiros técnicos e de contabilidade, as escolas de
enfermagem, as escolas do magistério primário, os conservatórios,
etc.) que, também por factores políticos de imagem e de valorização
social, pretendiam a sua promoção a ensino superior. Com elas se
organizou o ensino politécnico, talvez sem um plano prévio consistente.
O ensino politécnico nasce principalmente de uma atitude federativa de
existências avulsas, mais do que de uma opção lógica e
coerente.
Na lei de bases do sistema educativo, a distinção entre universidades
e politécnico é quase um jogo de palavras. Para ambos os tipos de
ensino, fala-se de formação técnica que habilite para o exercício
de actividades profissionais, de formação cultural, de aquisição
de capacidade de inovação e análise crítica. Quando muito,
pode-se realçar que se adjectiva como científica a preparação
dada pela universidade e como técnica a do ensino politécnico. De
qualquer forma, não há uma definição clara da missão
do politécnico. A distinção principal faz-se por truncagem:
os politécnicos conferiam o bacharelato, as universidades a licenciatura.
O perfil identificativo do politécnico foi-se fazendo com base nisto,
na organização de cursos de três anos e numa vocação
profissionalizante já existente em muitas das escolas que foram integradas
no politécnico. Esta situação complicou-se com a revisão
de lei de bases, que permitiu ao politécnico conferir licenciaturas. Continua
a distinção por truncagem, competindo apenas às universidades
conferir mestrados e doutoramentos. Mas, na falta de uma missão clara
para os politécnicos, distinta da das universidades, parece-me que esta
nova disposição legal ainda agravou mais a ambiguidade: em que é que
uma licenciatura do politécnico deve ser diferente de uma licenciatura
universitária?
Uma das intenções subjacentes ao ensino politécnico, que poderia
ter contribuído para uma imagem identificadora, era a grande ligação
ao tecido social, empresarial ou regional. Isto reflecte-se na lei da autonomia
dos politécnicos, que, ao contrário da lei da autonomia das universidades,
impõe uma participação relevante dos parceiros sociais na governação
dos institutos, inclusivamente na eleição do presidente. No entanto,
o sistema empresarial não infuenciou decisivamente o desenho do politécnico. À data
da sua implantação, as empresas viviam numa economia fechada e protegida,
sem informação científica e tecnológica, sem competitividade
e sem noção da previsível evolução da economia e do
emprego. Era fundamentalmente um sector industrial atrasado e tradicional,
baseado na mão de obra intensiva, barata e pouco qualificada, alheado
da inovação e ao qual a novidade do politécnico pouco dizia.
Ainda hoje, apesar da grande evolução do sistema empresarial, a sua
participação na vida do politécnico é relativamente irrelevante,
geralmente através de figuras de segunda linha. Mas também é verdade
que os institutos politécnicos não dão aos seus parceiros sociais
oportunidades reais de participação na política da instituição
e os empresários têm uma cultura de prática e eficácia
e dão grande valor ao seu tempo.
O nosso sistema binário é o mais corrente na Europa, com a coexistência
de universidades e de um subsistema não universitario. Exceptuam-se apenas
o Reino Unido (que, em 1992, transformou os politécnicos em universidades,
com consequências tidas por muitos como negativas), a Espanha e a Itália.
Mas, ao contrário de Portugal, em muitos países os dois subsistemas
têm igual dignidade, os seus cursos têm sensivelmente a mesma duração
e o valor social dos cursos não universitários é elevado. O
caso típico é o das engenharias e arquitectura, que, em alguns países,
como a Alemanha, a Bélgica, a Suíça, a Finlândia, a França,
a Holanda, a Irlanda e a Suécia, são total ou parcialmente cursos
não universitários, conferidos por escolas do sistema equivalente
ao nosso politécnico. São cursos politécnicos de cinco anos,
portanto equivalentes aos cursos portugueses, embora, em alguns casos, com
alternativa de cursos mais curtos, de índole técnica. Na sequência
de Bolonha, em muitos países, tais como os escandinavos, Malta, países
bálticos, França, Eslovénia e Eslováquia, o primeiro grau
passou a ser comum a ambos os subsistemas e em alguns, como na Áustria,
Alemanha, Holanda, Polónia e República Checa, o politécnico
passou, além disso, a poder conferir mestrados. Há mesmo os casos
limites da Noruega e da Irlanda, em que pode atribuir doutoramentos.
Esta diversidade institucional é positiva. A diversidade é um elemento
enriquecedor de qualquer sistema organizacional. A diversidade é particularmente
relevante no caso do ensino superior, face à grande complexidade dos desafios
que se lhe colocam e à multiplicidade de solicitações que lhe
são postas, a começar pela heterogeneidade crescente da população
que a procura. A diversidade aumenta o leque de escolhas, ajusta-se à evolução
rápida das exigências do mercado do trabalho, cria condições
para experiências inovadoras e estimula a procura de padrões de excelência
próprios de cada universidade. Aumenta a competitividade institucional
e, logo, a qualidade e proporciona oportunidades variadas de formação
ao longo da vida, hoje um aspecto crucial da política do ensino superior.
No entanto, a diversidade institucional (no caso em discussão, a coexistência
de universidades e institutos politécnicos) só fica com pleno sentido
se acompanhada de diversidade cultural, programática e de missão. É necessário
que os politécnicos tenham uma cultura institucional própria, não
decalcada da das universidades. Isto inclui uma visão própria da
tipologia e metodologia dos seus cursos, da composição e formação
do seu pessoal docente (que deve ser diferente mas não menos exigente
do que a das universidades), dos modelos organizativos e da governação,
da natureza da sua investigação científica. Tudo isto com um
sentimento forte de auto-estima do politécnico, que o não conduza
a rivalidades estéreis com as universidades, facilitadas por uma atitude
de mimetismo (o que se tem designado como "academic drift").
Tanto quanto me parece, o politécnico não tem sabido resistir a esta
luta vã contra a universidade, com prejuízo do seu valor próprio
e apesar de as circunstâncias o estarem a favorecer ou pelo menos a reduzir
a sua desvantagem em relação às universidades. O acesso reduzido
ao ensino superior traduz-se por emprego seguro e bem remunerado, em termos
relativos, com estatuto social privilegiado. Mas isto também já se
verifica, ou até mais, no politécnico. A relação de emprego
para novos diplomados entre o Estado e a actividade privada inverteu-se, e
isto também em benefício do politécnico. É certo, todavia,
que se mantêm alguns factores de desequilíbrio: a valorização
do grau universitário, até como bem escasso, mais do que no politécnico,
o prestígio da pós-graduação, exclusiva da universidade,
a maior influência social e cultural da universidade (a começar pelos
meios políticos). Não tenho números exactos sobre o acesso ao
politécnico mas suponho (até pela média de classificações
muito mais baixa na entrada) que, para muitos candidatos ao ensino superior,
o politécnico é uma segunda escolha. A afirmação da sua
qualidade e uma maior consciência pública do seu valor social contribuirão
para progressivamente desfazer esta situação desfavorável, desde
que o próprio politécnico seja o primeiro agente desta mudança
da opinião pública. Uma das suas vantagens posicionais, de que deve
tirar partido, é a muito melhor cobertura geográfica do que a das
universidades. Das 14 universidades públicas, só 3 se localizam no
interior, enquanto que os institutos politécnicos cobrem todos os distritos
do interior.
Mas a principal diversidade que justifica o politécnico é a de missão
e programática. O mercado de emprego precisa de jovens com sólida
preparação científica, de banda larga, com novas competências
transversais e atitudes modernas, com capacidade de conceptualizar projectos
e de promover a integração de equipas. É o que se pede hoje à formação
universitária. Mas precisa também de pessoas com saber fazer, com
sentido prático e empreendedor, com enraizamento no tecido económico-social
e com grande capacidade de adaptação permanente à evolução
tecnológica. É isto que se pede ao politécnico.
A outra característica essencial da formação politécnica,
decorrente disto, deve ser a grande articulação da formação
com a actividade profissional, incluindo a formação em ambiente de
trabalho. Por isto, a organização curricular dos cursos deve permitir
um trânsito fácil entre o ensino e a prática, nos dois sentidos,
incluindo a formação de tipo sanduiche, em fases sucessivas de ensino
e de actividade profissional, seja ensino tradicional sejam as novas formas
de ensino à distância e de aprendizagem ao longo da vida. Esta é uma
possibilidade aberta e já em prática pelas licenciaturas bi-etápicas
do politécnico, em que o estudante frequentemente ingressa no mundo do
trabalho no fim do primeiro ciclo e conclui a licenciatura como estudante trabalhador.
O mesmo se deve dizer para os docentes, cuja carreira deve ser determinada
por elementos curriculares importantes de actividade profissional e intervalada
frequentemente por essa actividade. Uma última consequência seria
a necessidade de muito maior investigação nos politécnicos,
que tem sido descurada (ou para que não têm meios), mas, pela sua
natureza, principalmente investigação aplicada e desenvolvimento
tecnológico, desejavelmente em parceria com as empresas ou os outros agentes
empregadores.
Não deve haver, todavia, uma diferença absoluta entre a formação
politécnica e a universitária. Embora a do politécnico esteja
mais orientada para o saber fazer e para as competências tecnológicas,
deve partilhar com a universitária a formação de competências
transversais. A criatividade e o gosto pela inovação, a capacidade
de continuar aprendendo, a capacidade crítica, o espírito de iniciativa
e de competitividade, as competências relacionais e comunicativas são
comuns a ambas as formações, universitária e politécnica,
apenas com uma diferença de ênfase. Penso que a diferença principal
devia estar no tipo de competências específicas, dando o politécnico
aptidão para trabalho prático e específico e para adaptação
rápida a tarefas concretas, enquanto que a universidade forma aptidões
mais ao nível da concepção, organização e gestão.
Tudo isto significa que os dois subsistemas, universitário e politécnico,
devem ter igual dignidade e não se podem definir por truncagem (isto é,
graus reservados a um deles, logo superior ao outro). O processo de Bolonha
e a reorganização de graus vai certamente contribuir para isto, porque,
como dito, a tendência é para que o primeiro grau seja equivalente
para todos os efeitos nos dois subsistemas. Mas em nada me repugna, como em
experiências europeias que referi, que o politécnico possa também
conferir os graus superiores. Chamar-lhes-ia o mestrado técnico e o doutoramento
técnico. Teriam que ter o mesmo grau de exigência de qualidade intelectual
e de esforço de aprendizagem dos seus equivalentes universitários,
com a diferença de o trabalho de "tese" ser essencialmente de
natureza profissional e prática, em vez de investigação académica.
Isto seria um contributo para a independência e dignidade do politécnico,
que assim se auto-alimentaria dos seus docentes, sem necessidade de recurso
ao grau académico universitário. Permitiria o recrutamento como docentes
de profissionais altamente qualificados, mais sintonizados com a missão
do politécnico do que os académicos de extracção universitária,
facilitando-lhes uma carreira específica, até agora dependente do
desvio para provas para que não têm vocação nem disponibilidades,
como o mestrado e o doutoramento universitários.
De tudo isto se conclui também que, mais do que falar de instituições
diferentes, falo de tipos de ensino diferentes. Por isto, nada impede, a meu
ver, que possam coexistir na mesma instituição. Já temos os
casos das Universidades de Aveiro e do Algarve, que integram escolas de ensino
politécnico, mas o inverso também não me é inaceitável,
isto é, a existência de faculdades num ou noutro instituto politécnico,
principalmente no interior mais carenciado.
A coexistência de faculdades e de escolas politécnicas na universidade
seria um factor de enriquecimento na diversidade, de diálogo de perspectivas
formativas distintas mas complementares e de estímulo à valorização
técnica e profissional dos docentes das escolas politécnicas. Contribuiria
também para a valorização social das profissões a que correspondem
as saídas curriculares das escolas politécnicas. Um exemplo elucidativo é o
da área da saúde. Parece-me óbvio e lógico o interesse
de uma universidade com uma faculdade de medicina dispor também de uma
escola politécnica de enfermagem ou de tecnologias de diagnóstico
e terapêutica.
A lei de bases do sistema educativo permitia que as universidades pudessem
integrar escolas de ensino politécnico. Surpreendentemente, a lei de organização
e ordenamento do ensino superior (Lei nº 26/2000, de 23 de Agosto) vem
provocar um recuo nesta situação, distinguindo rigidamente as organizações
do ensino universitário e do ensino politécnico e não prevendo
a possibilidade de coexistência de unidades de ambos os subsistemas na
mesma instituição. Estabelece, de forma fechada, que o ensino universitário é ministrado
em universidades e que o ensino politécnico é ministrado em institutos
politécnicos ou em escolas não integradas, não permitindo que
também o possa ser em escolas politécnicas integradas em universidades. É um
retrocesso fortemente lesivo da flexibilidade e agilidade do sistema de ensino
superior e que não contribuirá para relações de boa cooperação
e de articulação eficaz entre o ensino universitário e o politécnico. É verdade
que a nova lei estipula que "o ensino universitário e o ensino politécnico
devem estabelecer adequadas formas de articulação". Mas isto
parece pouco mais do que uma intenção piedosa, sem conteúdo
prático.
Há um campo larguíssimo para colaboração entre os dois
subsistemas e que provavelmente nem um nem outro tem tentado explorar. É possível
que haja, mas eu não conheço nenhum protocolo de colaboração
entre uma universidade e um instituto politécnico. Começa logo pela
formação dos docentes do politécnico, que ainda não podem
obter nos seus institutos os graus académicos necessários à progressão
na sua carreira. Depois, pela colaboração docente. Assim como os
professores universitários podem ensinar um certo número de horas
noutras universidades, deviam poder fazê-lo também no politécnico.
E também, por exemplo, apesar da formação politécnica ser
principalmente técnica, lucraria com complementos de ensino de índole
científica (estágios curtos, participação em projectos
de investigação) facultados pelas universidades. Também não
consta que haja esquemas contratados entre universidades e politécnicos
para permitir facilmente, quase automaticamente, a progressão para a licenciatura
na universidade dos bacharéis formados pelo politécnico.
Em conclusão, e com a ressalva de estar longe de ser um conhecedor do
politécnico, penso que ele deve ser um componente do nosso sistema de
ensino superior com muito maior reconhecimento de importância e dignidade
do que tem tido. Mas isto não se decreta. Deixe-se à opinião
pública e ao mercado de emprego a valorização das instituições
de ensino. É este o desafio mais decisivo ao ensino politécnico,
o da sua afirmação como qualidade (um esforço tanto maior quanto
tem que o mostrar a uma opinião pública e política reticente),
em vez de pequenas querelas e rivalidades entre os dois sistemas de ensino
superior. O politécnico tem uma tentação forte de imitação
das universidades. Por esta via, nunca o politécnico se afirma, porque
não tem os meios para competir com a universidade no terreno dela. O que
o ensino politécnico precisa é de afirmar a sua missão e personalidade
próprias e de construir uma base específica de credibilidade que
lhe dê o prestígio que deve merecer.
5.1.2002
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