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A PEDAGOGIA NO ENSINO SUPERIOR E O INSUCESSO
ESCOLAR
João Vasconcelos Costa
(com um COMENTÁRIO final de
Manuela Pires da Fonseca)
É bem sabido que há uma pedagogia própria do ensino superior,
melhor dito até pedagogias, no plural, porque com algumas diferenças
na pré e na pós-graduação e principalmente com o crescimento
do ensino à distância e do "e-learning". Mais difícil é caracterizar
a nossa situação em relação à prática pedagógica
nas universidades. Nem eu nem ninguém está a assistir regularmente
a aulas ou a ver como se fazem os exames. Mas já assisti a centenas de conferências
e comunicações científicas, que dão uma ideia aproximada
da capacidade pedagógica, assim como se dispõe da avaliação
e das críticas dos estudantes.
Os antigos ofícios aprendiam-se fazendo-se. O mesmo se passa ainda hoje
com o ofício de ensinar na universidade. Os professores universitários
não têm preparação pedagógica inicial e mesmo ao longo
da sua vida profissional raramente têm a oportunidade de participar em
cursos, seminários ou reuniões sobre pedagogia e métodos de
ensino. A pedagogia fica ao sabor de cada um, do seu instinto e dotes naturais
de comunicador.
Creio que a grande maioria dos professores ainda vê o ensino principalmente
como transmissão de conhecimento principalmente através das aulas.
Muitos estarão atentos a todas as modernas inovações pedagógicas,
mas provavelmente muitos mais mantêm uma atitude conservadora. Isto não
significa que a generalidade dos professores negligencie a qualidade do ensino,
a que são devotados (em muitos casos gostam muito mais de ensinar do que
investigar), mas principalmente que não têm incentivos para desenvolver
a sua capacidade pedagógica e que, muitas vezes, nem dispõem de informação
sobre a evolução da pedagogia universitária.
E, no entanto, a pedagogia do ensino superior tem vindo a progredir imensamente,
com novos conceitos e novos métodos. Isto depende em grande parte do que
se entende serem hoje os objectivos educacionais. Para objectivos diferentes,
obviamente os métodos são também diferentes.
O objectivo central hoje, na acepção dita de banda larga, é a
aquisição de mentalidade científica e de rigor, de capacidade
de raciocínio e de análise, de imaginação criadora. Isto
está mais dependente de uma formação científica sólida
e de base que da informação especializada ou do treino técnico
rapidamente desactualizado. O que se mede mais à entrada no mercado de
trabalho são aptidões que informações. É o domínio
dos instrumentos intelectuais, é a capacidade de integrar interdisciplinarmente
esses instrumentos, é o domínio de línguas, é o domínio
da nova linguagem da era da informação e da computação, é a
capacidade de comunicação, é principalmente a capacidade de
continuar a aprender. Pode-se dizer como fórmula que se pede cada vez
mais pessoas educadas que pessoas instruídas. Não se esqueça
também que a filosofia e utilidade social da universidade implicam que
a oferta de cursos não se pode só basear numa perspectiva exclusiva
de objectivos profissionalizantes. As universidades também têm a
obrigação de formar pessoas, prepará-las para a vida e para
a cidadania, treiná-las como futuros agentes privilegiados do progresso
social.
Assim, as características distintivas da aprendizagem superior são
o desenvolvimento da compreensão e a capacidade de aplicação
de conhecimentos a situações práticas variadas. Pode-se resumir
toda essa mudança numa fórmula simples e muito significativa: o
estudante como sujeito passivo do ensino é hoje substituído pelo
sujeito activo da aprendizagem.
O ensino tradicional é muito unidireccional. É a transmissão
de conhecimento e informação do professor para o estudante, que é simples
receptor, muitas vezes mais memorizador que compreensor. Na perspectiva moderna,
exige-se uma grande participação do aluno. Ele é activo na sua
própria aprendizagem, estruturando racionalmente os conhecimentos que
vai adquirindo, entrelaçando o que lhe é transmitido com o que ele
próprio procura. Com isto, o ensino passa obrigatoriamente a ser mais
do que transmissão de conhecimento. É também o facultar de processos
e ferramentas para esse papel activo do estudante. Em síntese, a atenção
principal na acção educativa transfere-se, em grande parte, do ensino
para a aprendizagem.
Esta tendência começa, já há muitos anos, pela simples
verificação de que o ensino é muito mais eficaz quando participado. É então
que começam a ver-se novos processos. As aulas passam a ser mais vivas
e mais apelativas, são entrecortadas com perguntas aos alunos, seguem
rumos diferentes conforme as respostas e a atitude dos alunos. Uma resposta
suscita uma informação adicional que suscita outra pergunta e esta
outra resposta. Terminam normalmente por uma breve revisão de síntese,
coloquial, com participação dos alunos. O professor passa a ter um
papel mais difícil. É como um actor quer tem que improvisar. Já não
pode limitar-se a debitar a matéria, tem que estar preparado para a todo
o momento ter que reorientar a aula, dar-lhe uma nova perspectiva. Uma pergunta
chave é: entre nós, em grande parte dos casos, o que é que
uma aula teórica adianta sobre a simples leitura de um livro? Até porque
hoje, em casos a que tenho assistido, são verdadeira sessões de leitura,
já não do livro que era lido pelo lente medieval, mas agora a leitura
textual das transparências que são projectadas.
Depois, a ênfase na aprendizagem activa é reforçada pela ideia
de que a formação completa e a mais necessária para se vencer
na vida activa já não é a do simples conhecimento ou compilação
de informação. É necessário desenvolver aptidões ("skills")
e comportamentos adequados. Não basta conhecer um texto, é preciso
saber criticá-lo e extrair o seu significado, é preciso que a leitura
dê indicações de como escrever. Isto é uma aptidão.
E é preciso gostar de ler e de usufruir de uma sensação estética.
Isto é um comportamento ou uma atitude. Esta nova visão da educação
radica também na ideia de que, mais importante que saber, é necessário
saber fazer. O ensino passa a dirigir-se a três esferas mentais do estudante.
Não só à cognitiva, com o saber tradicional, mas também à esfera
sensório-emotiva, isto é, à educação dos comportamentos
e atitudes, do saber ser e do saber estar, e à esfera psicomotora, a das
aptidões, do saber fazer. Mudou com isto o papel do professor. Mais
do que transmissor de conhecimento, é um facilitador da aprendizagem.
A partir dos anos oitenta, começa a tomar forma uma nova metodologia de
ensino, em que o estudante aprende em módulos delimitados, com um objectivo
bem definido e em que a aprendizagem, em grupos interactivos, tem por rumo
a resolução de um problema. É o método de aprendizagem
por resolução de problemas, de que também há uma variante
menos avançada e mais adequada a certas matérias menos práticas,
o método da aprendizagem baseada em problemas. Infelizmente, não é tema
que possa tratar neste artigo. Seria necessário todo um livro (ver, por
exemplo, Hélder Martins, "Metodologia de aprendizagem por solução
de problemas", Editorial Terceiro Milénio, Maputo).
Mesmo em relação ao ensino tradicional, vejo com frequência
não se atender a aspectos elementares do método pedagógico.
Começa logo por ainda se ver que a matéria dada não depende
de objectivos de ensino, definidos tendo em conta o "background" dos
alunos, as suas motivações, os seus interesses intelectuais e científicos
e os seus objectivos profissionais. Pelo contrário, muitas vezes, o conteúdo
de um curso traduz apenas os interesses pessoais e científicos dos docentes.
Em segundo lugar, não é claro, por vezes, que a organização
de um bloco de ensino, seja uma disciplina convencional seja um módulo
de um curso modular, assente nestes princípios básicos que são:
o ensino deve partir sempre do conhecido para o desconhecido, do simples para
o complexo, do concreto para o abstracto, da observação para o raciocínio
e do geral para o particular. Embora com a excepção, em relação à última
regra, de que por vezes a colecção dos particulares facilita a demonstração
do geral.
Também se observa que nem sempre estão presentes nos professores
alguns critérios do ensino actual: que se deve privilegiar a compreensão
em relação à memorização; que se deve treinar para
a capacidade de aquisição e assimilação crítica da
informação, mais do que facultar imediatamente a informação;
que se deve fomentar a interactividade do ensino, com grande participação
dos alunos, em aulas vivas, em que eles são confrontados com problemas
suscitados pela exposição anterior; que os métodos devem ser
diversificados, tornando o ensino mais atraente – aulas tradicionais,
sessões tutoriais de revisão de matérias e esclarecimento de
dúvidas, sessões de estudo orientado, seminários para discussão
de temas ou de artigos científicos, trabalhos e discussão de grupo,
visitas de estudo, etc.
Muitos cursos e aulas nem sequer são estruturados. Hoje recomenda-se que
tanto os cursos como até cada aula por si só, se organize numa sequência
de introdução, objectivos, desenvolvimento, exemplos, exercícios,
resumo e bibliografia. A introdução deve apelar para a motivação
e orienta logo o aluno para o âmbito do problema a estudar, que deve ser
claramente definido na secção de objectivos, criando-se a expectativa
no aluno e o desafio do sucesso da aprendizagem. Desenvolvimento, exemplos,
exercícios e resumo seguem-se numa linha lógica de aquisição
de dados e conceitos, de concretização, de reflexão e de assimilação.
Os meios audiovisuais são hoje um instrumento essencial do ensino. Pode
parecer que isto é uma minudência, pode isto parecer um pequeno exemplo
não muito importante, mas cito-o para demonstrar com um exemplo prático
e facilmente inteligível o que comecei por escrever, que falta uma preparação
pedagógica estruturada na universidade. Até na apresentação
de meios visuais de ensino se nota por vezes a impreparação pedagógica
de muitos professores. Os meios visuais, nomeadamente os mais vulgares diapositivos
e transparências, têm que despertar o interesse, devem simplificar
e organizar a instrução, sem repetir a exposição oral,
devem facilitar a retenção da informação e devem desafiar
activamente a compreensão do seu conteúdo. Do ponto de vista técnico,
também há requisitos elementares. Os conteúdos devem ser simples,
curtos e enfáticos, devem ser bem visíveis e com dimensões correctas,
devem ser correctos, interessantes e não agressivos graficamente. O grafismo
deve ser, de facto, muito cuidado porque dele depende muito a eficácia
da mensagem. Lembre-se agora o leitor, que passou por muitas aulas, de quantas
vezes os meios visuais apresentados faltavam a estes requisitos elementares.
Se, na universidade, a pedagogia é insuficiente, a docimologia também
o é. Vou só dar o exemplo de uma das formas hoje mais correntes de
exames, que são os testes de escolha múltipla. Ainda não encontrei
um professor que domine a técnica destes testes, por mais que ela esteja
explicada em manuais. O espaço deste artigo não permite uma maior
exposição do que alguns princípios básicos, normalmente
desconhecidos entre nós (posso fornecer um texto mais completo a quem
desejar): a) as quatro respostas erradas devem ser duas que o aluno médio
tem obrigação de eliminar (distratores) e duas com alguma plausibilidade;
b) a raiz da pergunta deve conter toda a questão e as respostas não
devem conter negativas e devem ser homogéneas em tipo e extensão;
c) as respostas devem ser distribuídas aleatoriamente; d) as perguntas
devem ser independentes umas das outras, embora haja técnicas de perguntas
de controlo para aferir do acaso nas respostas, além de que há uma
fórmula para correcção de adivinha; e) o cálculo do limiar
de passagem não é o de metade das respostas certas, mas sim uma fórmula
mais complexa em que, para cada pergunta, entra um índice de dificuldade
relacionado com o número de respostas que o aluno tem que eliminar; f)
a prova deve ser finalmente aferida conforme os resultados, eliminando-se para
todos os alunos perguntas nos extremos da facilidade ou dificuldade ou com
baixo coeficiente de discriminação.
O insucesso escolar
Temos uma taxa altíssima de insucesso escolar. Cerca de metade dos nossos
estudantes não consegue concluir os seus cursos no tempo previsto. Há muitas
causas para isto, como a má preparação com que vêm do secundário,
a falta de articulação entre os dois níveis de ensino, a deficiente
qualificação do pessoal docente, com uma percentagem muito elevada
de não doutorados (felizmente uma situação já em inversão
em algumas universidades), as carências das bibliotecas e parques de computadores,
etc. Mas creio que as deficiências da pedagogia universitária e factores
com ela relacionados jogam um papel decisivo.
Em boa parte, alguns desses factores de insucesso estão ligados à massificação.
Mas ela acabou. Em 2001, a oferta de vagas já ultrapassou a procura. A
desculpa da massificação está a atenuar-se, mas é óbvio
que o incremento da qualidade não vem directamente da simples diminuição
do número de alunos, mesmo que com aumento da sua qualificação,
e da correspondente maior disponibilidade do corpo docente. A qualidade envolve
a actividade científica, passa por melhores meios pedagógicos, infra-estruturas
e equipamentos, por uma cultura universitária aprofundada e mais moderna.
Parte disto exige apoio e financiamento do Estado, mas boa parte está exclusivamente
nas mãos da universidade.
Um primeiro aspecto, relacionado com a concepção do ensino, é o
da elevada carga escolar a que estão sujeitos os nossos estudantes. Os
estudantes universitários portugueses têm um percurso escolar demasiadamente
longo mas, além disso, e ainda por cima, estão sujeitos a uma carga
horária excessiva, que ultrapassa significativamente o que é norma
noutros países e deixa aos estudantes pouca disponibilidade para o estudo,
para a procura própria de informação, para a consulta a bibliotecas.
Para já não falar que limita quase totalmente outras actividades
também essenciais à formação universitária, como a
vivência cultural, a prática desportiva, a convivência com os
colegas, reforçando a sociabilidade e a solidariedade de grupo.
Esta escolaridade excessiva tem duas causas. Primeiro, um número demasiado
de disciplinas, por vezes irrelevantes e não essenciais a uma formação
ao nível básico da licenciatura, antes adequadas a especializações
posteriores. Em segundo lugar, em cada disciplina, um número excessivo
de horas de aula, também na mesma lógica de excesso de informação
supérflua e não significante, com falta de critério na definição
do que é a informação essencial à formação e
o que é uma massa informativa indegirível e candidata a rápido
esquecimento. É, com frequência, um sinal da compreensível falta
de maturidade científica dos professores jovens, que têm um grande
gosto de transmitir os seus conhecimentos, mas sem saberem distinguir o essencial
do acessório.
As disciplinas universitárias, mesmo semestrais, têm em muitos casos
que conheço uma carga de trinta e mesmo quarenta horas de aula, só de
teóricas. Uma disciplina típica, especializada, numa boa universidade
americana tem cerca de quinze horas de aulas teóricas. O excesso de aulas
acaba também por ser prejudicial para os professores, sujeitando-os a
uma carga docente lesiva de outras actividades igualmente importantes, designadamente
a investigação. Rácios altos e programas extensos com grande
escolaridade convergem para que a carga docente média nas universidades
portuguesas seja das mais altas da Europa.
Caricaturalmente, pode-se dizer que há uma tendência para a cada
professor uma disciplina, mesmo a cada jovem professor auxiliar recém-doutorado.
No entanto, também há universidades e escolas em que já rareiam
os assistentes, que entretanto foram fazendo os seus doutoramentos, e em que
esses agora professores auxiliares desempenham as clássicas funções
dos assistentes, sendo responsáveis pelas aulas práticas. É antipático
dizer isto aos mais novos, mas uma boa regência teórica universitária
não pode estar ao alcance de um jovem professor. Não se limita a
reproduzir a informação dos livros, tem que traduzir toda uma maturidade
científica, capacidade de extrair o essencial da vastíssima informação
actual, capacidade de integrar os conhecimentos num edifício intelectual
coerente.
Também se verifica muitas vezes nas nossas universidades a tendência
para entregar aos mais novos as disciplinas propedêuticas e generalistas,
enquanto que os mais diferenciados se refugiam comodamente nas disciplinas
de mestrado ou nas disciplinas finais especializadas das licenciaturas. É o
inverso da situação em outros países, em que o cálculo,
a física geral, a química geral, a biologia molecular, são dadas
pelos professores mais prestigiados. E isto porque se sabe que a aprendizagem
dos conceitos básicos e fundamentais é assunto sério, porque é determinante
para toda a aprendizagem subsequente.
Outra medida que seria essencial para a redução do insucesso seria
a introdução da figura do tutor, à inglesa. Cada aluno
tem como tutor um professor que é o seu guia de estudos, em todas as disciplinas,
não apenas na sua especialidade e que se interessa por resolver junto
dos outros professores as dificuldades de aprendizagem. É até mais
do que isto, é um formador em geral, com quem se discutem os interesses
culturais, políticos e filosóficos, com quem se troca impressões
sobre a actualidade e as notícias. É óbvio que, com a carga
docente actual e com a necessidade de praticar a investigação, tudo
isto é teórico. Seria precisa uma revisão dos rácios que
contemplasse esta função de tutoria.
Tanto quanto sei, a Universidade do Minho é a única universidade
que adoptou um plano de combate ao insucesso com base fundamentalmente em práticas
pedagógicas modernas. Conforme uma comunicação de Cecília
Leão ao 1º Simpósio Nacional do CNAVES (2000), esse plano baseia-se
em: metodologias de ensino-aprendizagem centradas no aluno, chamado à participação
activa; actividades formais de aprendizagem apelativas para a intervenção
dos alunos, tais como seminários e trabalhos de grupo; projectos de estudo,
de investigação ou de campo; tempo adequado para o trabalho individual
e de grupo; pesquisa e utilização crítica da informação,
na perspectiva da resolução de problemas; sistema de tutores; facilidades
de crédito para aquisição de material informático; estrutura
curricular flexível e diversificada, com opções; incentivos
e recompensas para o melhor desempenho pedagógico. Espero que este exemplo
frutifique.
A formação pedagógica
As universidades já têm tomado iniciativas de carácter pedagógico,
como pequenos cursos para docentes ou seminários. Não tenho nada
de muito novo a propor que não seja uma expansão em grande escala
deste tipo de actuações e que a frequência destas acções
formativas sobre pedagogia seja um elemento de peso na avaliação
curricular dos professores jovens, para efeitos de promoção e de
nomeação definitiva. Estas actividades deveriam competir a núcleos
pedagógicos das universidades que também tivessem actividade de investigação,
o que é tanto mais fácil quanto muitas têm departamentos de
ciências da educação. As universidades também podem usar
para com os seus professores, em relação à aprendizagem dos
conceitos e métodos da pedagogia moderna, os meios modernos de aprendizagem
não presencial, como o ensino electrónico ("e-learning").
Seria até um teste interno muito útil para se aferir da eficácia
e correcção técnica do ensino à distância.
Sugiro que se criem também fóruns informais ou clubes de interesses
pedagógicos. Estes encontros regulares de docentes seriam úteis para
troca de experiências, concertação de conteúdos e métodos
do ensino e aferição colectiva das atitudes docentes, por exemplo
no que respeita à avaliação dos conhecimentos científicos
mínimos para a docência, à compreensão dos processos específicos
da aprendizagem, tanto de jovens como de adultos, às técnicas modernas
de ensino e comunicação, às formas práticas de planeamento
e organização de conteúdos de ensino e ainda aos truques de
atitude docente que facilitam a espontaneidade e a vivacidade.
A nível nacional, apoiando a acção dos núcleos pedagógicos
das universidades, proponho a criação de um Instituto do Ensino Superior,
com missões múltiplas: investigação sobre a pedagogia universitária,
divulgação e formação. Isto quanto à pedagogia, porque
este instituto deveria também abranger a investigação, divulgação
e formação em outras áreas essenciais para a universidade: mecanismos
de qualidade, formulação de políticas, organização
e gestão, ensino à distância, etc.
A avaliação individual do ensino
Na concessão da nomeação definitiva e nos diversos concursos,
os professores são avaliados muitas vezes com critérios muito diversos,
conforme os júris e as práticas das escolas. É justo que, embora
com ponderações diferentes, sejam avaliados no que respeita aos três
componentes da sua actividade: a investigação, o ensino e a participação
institucional. O problema é que, enquanto que a avaliação científica é fácil
e objectiva com base no currículo, é muito difícil avaliar a
actividade pedagógica. Ensinar tantos anos e tantas disciplinas nada diz
sobre a qualidade e modernidade dessa actividade. O único elemento que,
a meu ver, tem alguma utilidade é o relatório pedagógico do
concurso para professor associado, que muitas vezes permite avaliar as concepções
pedagógicas e os métodos preconizados.
Isto é tanto mais importante quanto, como no meu caso, se defende uma
avaliação permanente que sirva de base a um sistema de progressões
por mérito e mesmo a concursos de promoção, para além dos
actuais concursos de recrutamento. Essa avaliação permanente deve
ser tanto científica como pedagógica.
Não temos experiência deste tipo de avaliação, mas ela
existe noutras partes. Vou dar o exemplo da Universidade de Cornell, que não
se afasta muito do que se faz noutras universidades americanas. Os alunos desempenham
um papel importante na avaliação, pronunciando-se a meio e no fim
da disciplina. Ao mesmo tempo, o director de departamento (já escrevi
repetidamente que aqui se trata de um director com grandes poderes, não
como cá) assiste com regularidade às aulas dos professores do departamento.
No caso dos "assistant professors" o sistema é ainda mais rigoroso.
Cada um tem "mentors" que os ajudam no ensino e que, no fim, são
chamados à avaliação. Finalmente, todos os docentes são
avaliados por uma comissão externa, que assiste a aulas e entrevista o
professor, após o que, juntando-se todos os elementos, o departamento
classifica os seus docentes. Não vejo porque é que um sistema deste
tipo não pode ser usado em Portugal, em que a universidade já está relativamente
avançada na cultura da avaliação.
20.04.2002
COMENTÁRIO
Manuela Pires da Fonseca,
U. Évora
Gostei muito de ler o artigo acima, que encontro perfeitamente pertinente.
Acrescento contudo que a pedagogia não é apenas determinante do
sucesso escolar: ela é também determinante do sucesso ou insucesso
profissional. E a Universidade não se deve preocupar apenas com o percurso
do aluno enquanto tal (evitar que uma licenciatura demore ainda mais que
os 4-5 anos programados), mas deve também seguir o seu percurso profissional
pós licenciatura. É o sucesso pós-laboral que afinal avalia
a qualidade do ensino, sucesso que se converte em atracção para
novos alunos. Ora sendo o mercado de trabalho cada vez mais volúvel,
para além de facultar formações de excelência a Universidade
deverá empenhar-se em promover o que os anglo-saxónicos designam
como capacidades moldáveis (transferable skills), moldáveis no
sentido em que permitem que o indivíduo interprete e responda a uma
solicitação de trabalho tirando o máximo partido das suas
capacidades e sempre com elevado profissionalismo.
Como refere o Prof. JVC no texto acima, a Universidade tem uma obrigação
(penso que o termo é meu), acima de tudo, de prepar o indivíduo para
equacionar e resolver problemas, interpretar e divulgar resultados (expressão
oral e escrita), trabalhar em equipa (flexibilidade, adaptabilidade), organizar
o trabalho (tomar iniciativa, estabelecer e cumprir metas), auto-criticar-se,
e melhorar a performance individual. Qualquer aluno, independentemente do curso
que frequenta, deveria adquirir/desenvolver estas aptidões. A Universidade
de Cambridge, por exemplo, torna claro o seu empenhamento em desenvolver estas
capacidades: http://www.admin.cam.ac.uk/offices/education/skills/definitions.html.
Não será coincidência que os respectivos alunos recebam ofertas
de emprego ainda antes de terminarem os cursos, empregos que muitas vezes estão
menos relacionados com as matérias estudadas, que com as experiências
vividas dentro da universidade.
Para além das actividades extra-curriculares, a investigação é provavelmente
o campo que melhor promove o desenvolvimento e apuramento das ditas capacidades
moldáveis. No Reino Unido já se verifica um decréscimo no número
de estudantes de doutoramento. Nós ainda estaremos na fase ascendente,
mas só ganhariamos em ir aprendendo com os erros e análises dos outros.
O Relatório
Robert's (estudo encomendado pelo governo britânico para avaliar a
estratégia do Reino Unido em matérias de inovação e produtividade,
Abril 2002, denuncia as más perspectivas de trabalho oferecidas aos doutorados,
e o treino inadequado (particularmente no que se refere às tais capacidades
moldáveis) que alguns doutorados receberão. Relativamente a este último,
o problema é abordado em moldes semelhantes aos do Prof. JVC no texto
que citei.
Relativamente às primeiras, o Relatório refere a precaridade de trabalho
e a necessidade urgente de facultar uma carreira aos investigadores doutorados.
O post-doc deve ser visto como um passo/treino para obter a certificação
(ou chumbo - mas a opção tem que existir) como membro do staff académico;
em Portugal, pelo contrário, as bolsas de pos-doc são vistas como
uma carreira em si, um patamar sem fim. Para os investigadores também
vocacionados para ensinar, o Relatório Robert's sugere a criação
de "fellowships" de pelo menos 5 anos para serem atribuidas a pot-docs
que queiram leccionar - estas fellowships serão avaliadas não só em
termos da investigação produzida, mas também de acordo com a
qualidade das aulas prestadas. Estas fellowships representariam o processo
ideal de formação e recrutamento dos futuros professores; em Portugal
poderiam ainda servir de exemplo (no bom sentido) a alguns dos maus professores
que o Prof. JVC vê dificuldade em reciclar, já que os candidatos
a professor teriam que obrigatoriamente produzir aulas atractivas e úteis
na sala do lado.
Infelizmente, em Portugal continua a acreditar-se que um licenciado pode muito
bem ir aprendendo a dar umas aulas sob a cumplicidade de professores já estabelecidos,
como se de escolha de sucessão se tratasse. E os investigadores doutorados
ocupam-se com bolsas. Profissão? Bolseiro. Mais que a manutenção
do status quo, talvez o problema esteja na falta de criatividade (capacidades
moldáveis...) de quem de direito.
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