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GOVERNAÇÃO DAS UNIVERSIDADES - A PROPÓSITO DE UM ARTIGO DE M.
SHATTOCK
João Vasconcelos Costa
Escreve-me o Prof. Alberto Amaral: "Para refrear um pouco a veia managerialista
envio-lhe um artigo que o Michael Shattock acaba de apresentar em Londres
(nota JVC: M. Shattock, "The governance of UK universities in the post-Dearing
era - Rebalancing modern concepts of university governance". Publicado
ou apresentado em ?). É tanto mais significativo quanto ele foi um dos
obreiros da Universidade de Warwick, uma das entrepreneurial universities
por excelência e que portanto não pode ser acusado de excessos
de academismo."
Esta "provocação" amigável e com alguma dose de humor
do Prof. Alberto Amaral suscita-me uma resposta que lhe enviei e que agora publico.
Vou-lhe demonstrar que a minha eventual "veia managerialista" é moderada
e julgo que equilibrada, atendendo à nossa situação real e às
nossas tradições, de que não se pode fazer tábua rasa de
um momento para o outro. Neste sentido, a minha concordância com o artigo
de Shattock é muito grande e já vem de trás, como verão os
leitores do meu livro "A universidade no seu labirinto", que certamente
reconhecerão no que se segue quase que apenas citações do meu
livro.
No seu artigo, Shattock põe em questão o frequente papel excessivo
dos conselhos de governo no modelo de governação inglês, a que
chama empresarial (eu, no meu livro, preferi chamar-lhe profissional, para evitar
as más interpretações do termo "empresarial"), essencialmente
caracterizado pela existência de pequenos conselhos de governo de membros
externos ou em que estes estão representados com grande peso. Refere, em
contraponto, o modelo a que chama consensual ou académico (e a que chamei
colegial), já vestigial no Reino Unido, à excepção de Oxbridge
(Oxford e Cambridge), mas não passa para a defesa deste modelo em relação
ao empresarial, embora criticando os excessos e viciações deste último.
Critica também a frequente falta de diálogo e de interacção
entre os conselhos e os órgãos académicos (senados) e defende
um modelo misto de responsabilidades partilhadas ("shared governance"),
mas sem nunca pôr em causa a existência dos conselhos, uma realidade
hoje fortemente estabelecida no Reino Unido. Dá como exemplo de tendência
para a governação partilhada a discussão que hoje se passa em
muitas universidades americanas no sentido de uma maior relação entre
os "boards" e os senados, hoje órgãos quase desprovidos de
interesse. Este mesmo exemplo foi também invocado por mim na nossa recente "polémica" sobre
regulação, Estado e mercado.
Expondo a história e recentes modificações do modelo empresarial,
Shattock aceita a legitimidade dos conselhos e o papel dos membros externos à comunidade
académica principalmente como "demonstrando a propriedade da universidade".
Neste sentido, relaciona-os principalmente com o financiamento, escrevendo que,
numa situação em que o financiamento depende largamente do Estado, "os
conselhos deixam de ter tanta importância no "fund raising" (uma
das suas razões de ser fundamentais nos Estados Unidos) e passam a ter como
tarefa essencial a administração dos fundos providenciados pelo Estado".
Em nenhuma parte do artigo é invocado que essa tarefa deva caber aos órgãos
académicos, propondo Shattock apenas que os conselhos lhes deixem as matérias
académicas, defendendo que "a harmonia entre os dois órgãos
deve ser uma prioridade muito alta na universidade". Em parte alguma do
seu texto Shattock põe em dúvida o modelo "empresarial" dos
conselhos. A sua tese é a da compatibilização deste modelo com
a participação da comunidade académica, principalmente porque,
já desde há muitos anos, "as decisões sobre o financiamento
das instituições são principalmente determinadas por critérios
quase-académicos e a comunidade tem que exercer inevitavelmente um papel
muito mais influente na governação".
Nas minhas teses sobre a governação da universidade portuguesa, dou
relativamente pouca importância a este tipo de legitimidade financeira,
de gestão dos dinheiros públicos. Não é que não a aceite,
mas creio que temos outros factores que sobrelevam, logo a começar pela
necessidade de mudanças culturais. Como escrevi, uma característica
fundamental da actual cultura universitária é o sentido de posse, autárcico
e corporativo. A universidade rege-se autonomamente, raramente se questiona sobre
a legitimidade política e social dessa autonomia, ainda vive muito só por
ela e para ela, nem sempre se preocupa com o alcance social e validade pública
das suas opções. Raramente chama os seus parceiros sociais a responsabilidades
no seu governo e na definição das suas políticas, o que reflecte,
em grande medida, a concepção típica dos universitários de
que só eles é que têm legitimidade (conferida por quem?) para
decidir dos assuntos da "sua" universidade. Por consequência,
falta-lhe também o espírito de responsabilidade, de prestação
de contas.
Por toda a Europa, mesmo nos sistemas de governação ainda acentuadamente
académicos ou colegiais, a participação de membros externos à universidade é a
regra geral. A participação nos senados de membros externos à universidade
(nem falo agora de conselhos de governo!) traduz a sua abertura aos interesses
sociais, ultrapassando os limites da autonomia corporativa. É também
simbólica de um reconhecimento de que a legitimidade dos órgãos
de governo da universidade não radica apenas na autonomia da universidade
e numa lógica corporativa, mas reconhece que a universidade tem que ir também
buscar legitimidade à sociedade de que é um instrumento. Em Portugal,
a inclusão nos senados de membros externos à universidade é permitida
pela lei da autonomia, até à proporção máxima de 15%.
Nem se pode dizer que a participação de membros externos alteraria
substancialmente a relação de forças de poder ou enfraqueceria
a capacidade de decisão da própria corporação de docentes,
estudantes e funcionários. É um número demasiadamente pequeno
para ter grande influência na correlação de votos mas suficientemente
significativo para permitir uma maior largueza de perspectivas e preocupações
sociais nos debates e na formação de opinião.
No entanto, a inclusão de membros externos nos senados está longe de
ser a regra. Esta abertura só existe nas universidades do Minho, de Trás-os-Montes
e Alto Douro, de Aveiro, da Beira Interior e do Algarve, podendo também
haver facultativamente membros externos no senado da Universidade dos Açores,
mas por decisão do próprio senado. Está também prevista na
proposta de estatutos da Universidade do Porto que não tenho agora presente
se já foram homologados e já estão em vigor. A proporção
dos membros externos é muito diversa. Ela é quase simbólica em
Aveiro (apenas dois membros externos) mas já é significativa num órgão
paralelo, o Conselho da Universidade, que tem a seu cargo as relações
com a comunidade. A percentagem é de cerca de 5% no Algarve e só nas
Universidades da Beira Interior e do Minho é que praticamente se atinge
a percentagem máxima fixada na lei. Aliás, creio que a Universidade
do Minho chegou a ter uma proporção mais alta de membros externos no
senado e que só a baixou em virtude do máximo fixado pela lei da autonomia.
Nenhuma das universidades tradicionais inclui nos seus senados membros externos,
nem sequer universidades modernas como as de Évora ou da Madeira ou mesmo
a Universidade Nova de Lisboa, que, pela sua idade jovem, justifica que procure
distinguir-se das outras universidades lisboetas. Pode-se argumentar que estas
universidades também acolhem membros externos, não no senado mas nos
seus conselhos consultivos. A experiência mostra que não é a mesma
coisa e que nunca há o mesmo empenhamento e compromisso na participação
de um simples órgão consultivo que na de um órgão deliberativo.
A própria universidade também parece menorizar estes órgãos
de consulta, que em muitos casos não funcionam ou até não estão
constituídos.
Mas o meu principal argumento em relação à intervenção
de membros externos e à adopção de um modelo de governação
mais profissional ou empresarial deriva da necessidade de um governo estratégico
de que as universidades estão desprovidas e que os académicos, sozinhos,
sem intervenção externa, parecem incapazes de assumir. Ele é tanto
mais importante quanto as universidades se vêem defrontadas com enormes
desafios, inesperados ainda há poucos anos, e que exigem respostas políticas
e estratégicas prontas, proactivas, diversificadas e eficazes, principalmente
no que respeita à política da qualidade e à competitividade.
Para mim, em termos práticos, a questão não é tanto a da
legitimidade da governação e da presença de membros externos,
ou o controlo dos recursos providenciados pelo Estado e pelas outras fontes de
financiamento. Tudo isto importa, mas a questão principal e primeira é a
da própria governação efectiva, da sua existência (ou não,
em Portugal) e da sua eficiência.
Citando Moodie e Eustace, Shattock parece reconhecer que, pelo menos em 1974, "a
comunidade académica não estava particularmente bem equipada para governar
as universidades". Não creio que a situação se tenha alterado,
seguramente não em Portugal. Em geral, as universidades não têm
pensamento estratégico e estão desprovidas de meios para o elaborarem.
Penso que o seu problema crucial é a falta de um mecanismo central gerador
de políticas e estratégias, com consequente liderança, ainda que
obrigatoriamente em compromisso com a descentralização e participação
na decisão que é uma característica obrigatória da vida universitária.
É daí que vem o défice de eficiência de gestão das universidades.
Ele parece indiscutível, principalmente se compararmos as universidades
com outras organizações modernas, empresas ou fundações e
deriva de alguns factores fundamentais: da rede imbricada de órgãos
colectivos de dimensão inadequada, com numerosa representação
dos vários corpos universitários e sem base obrigatória de competência;
da colegialidade de órgãos que, pela sua natureza, deviam ser unipessoais;
das limitações impostas aos órgãos unipessoais, quando existem,
pelos sistemas de eleição e controlo; e da complexidade e falta de
funcionalidade dos mecanismos de participação na tomada de decisão.
Acabam muitas vezes por ser os reitores, quando para isso dotados, a preencher
esse vazio de pensamento estratégico, paradoxalmente se tivermos em vista
a cultura universitária de colegialidade e basismo. De facto, contra o parlamentarismo
da "gestão democrática", funciona o presidencialismo dos
reitores.
Onde estão então, na universidade, as competências típicas
do conselho de administração de qualquer empresa? Quem decide da missão
e imagem institucional? Quem faz a análise dos desafios, das janelas de
oportunidade (como agora tanto se diz) e das constrições internas e
externas? Quem elabora as políticas específicas, neste caso de ensino,
de investigação, de serviços à comunidade, de pessoal? Quem
estabelece as prioridades? Quem define as estratégias? Quem acompanha e
controla a acção dos executivos?
Pela lei da autonomia, que fixa rigidamente os órgãos de governo das
universidades, estas funções competem aos senados. É geralmente
reconhecido que não as cumprem. Não só seguimos um modelo colegial
que pode ser visto como uma excepção em relação à teoria
geral das organizações como até, levando-o ao extremo, o tornamos
ainda mais ineficiente.
A dimensão e composição do senado estão completamente desajustados
das competências que a lei e a generalidade dos estatutos das universidades
lhe atribuem. Com poucas excepções, os senados ultrapassam largamente
a centena de membros. Hoje há regras bem conhecidas para formatar órgãos
de decisão em função das atribuições que se lhes dá.
Um órgão deliberativo, como é legalmente o senado, em que é necessário
haver debates aprofundados antes da tomada de decisão e em que, em princípio, é desejável
que todos os membros possam ter oportunidade de se pronunciar, não pode
funcionar com mais do que vinte a trinta pessoas. Um órgão de maior
dimensão só pode ter atribuições de tipo assembleia, validando
grandes decisões mas sem possibilidade de as discutir em pormenor e exercendo
também competências eleitorais. Neste sentido, o senado, com a dimensão
e composição actuais, é uma verdadeira assembleia da universidade
e não um órgão deliberativo.
Para além da sua dimensão não operacional, o senado é um órgão
com reduzida lógica estrutural, composto mais por representantes de corpos
sociais da universidade do que traduzindo uma lógica organizativa, sem prejuízo
de, na generalidade das universidades, incluir na sua composição inerências
de funções nas escolas ou departamentos. A maioria dos seus membros,
os eleitos, são-no por factores que não obrigatoriamente a competência
para governar, sentem-se a representar os interesses do grupo que os elegeu,
estão presos à visão particular desses grupos, não têm
sentido institucional e estão relativamente distantes dos problemas e interesses
gerais da universidade. Em algumas universidades, é frequentemente difícil
atingir-se o quorum necessário para as reuniões do plenário do
senado. Por tudo isto, a preocupação de democraticidade que está subjacente
ao poder do senado pode ter efeitos perversos, na medida em que a sua inoperância
gera um vazio que pode ser preenchido por um acréscimo prático dos
poderes do reitor.
O equivalente inglês aos nossos senados eventualmente funciona melhor. Mesmo
assim, Shattock, embora pretendendo uma maior intervenção do senado,
não defende o seu papel como órgão único de governo, como
entre nós, em substituição dos conselhos. Citando o relatório
Dearing, aparentemente sem o criticar, Shattock reconhece ser necessário "maior
eficiência de custos, maior ênfase na qualidade da aprendizagem e do
ensino, maior ligação ao meio externo e maior extensão do ensino
a novas populações de estudantes" e que "portanto, são
necessários órgãos de governo para conduzir as instituições
na sua direcção estratégica".
Vai neste sentido a minha proposta de introdução nas universidades
de um órgão de governo com capacidade efectiva e eficiente de decisão
política. As suas competências seriam definir políticas e consequentes
soluções estratégicas (a submeter ao senado para ratificação),
criar ou extinguir faculdades e cursos, homologar os estatutos das unidades orgânicas,
definir os critérios de distribuição interna do orçamento,
promover a auto-avaliação e analisar a avaliação, com consequentes
políticas correctivas, estabelecer as relações entre a universidade
e o meio social e acompanhar a gestão da universidade. Deve ser composto
por pessoas com visão larga dos problemas da universidade e sentido institucional,
bem informadas sobre as tendências mundiais de evolução dos sistemas
universitários. Deve também incluir membros externos, em proporção
muito significativa, não só pela razão teórica da legitimidade
social da gestão da universidade mas também pela razão prática
de veicularem para a universidade a visão e as solicitações do
meio económico e social.
Veja-se que estou a ser mais moderado que Shattock, que não põe em
causa a composição total ou predominantemente externa dos conselhos
de governo, como acontece no seu país. Vou também mais longe do que
a sua posição de simples articulação funcional ou partilha
de responsabilidades dos dois órgãos, conselho e senado, quando escrevi
que uma solução possível, em compromisso com o nosso modelo actual, é que
o órgão de governo seja uma emanação do senado, uma sua secção
política. É a solução adoptada nos novos estatutos da Universidade
do Porto (prezo esta referência, já que estou a responder a Alberto
Amaral), em que a secção permanente do senado, um órgão funcional
de 30 membros, tem competências fixadas estatutariamente, tão importantes
como sejam a aprovação dos orçamentos, a criação ou
extinção de cursos, as alterações aos quadros de pessoal,
a criação de serviços das unidades, a fixação das propinas,
etc, enquanto que ao plenário do senado ficam reservadas apenas funções
genéricas do tipo de assembleia geral. Nos seus 30 membros, a secção
permanente inclui dois membros externos à universidade. É pouco, mas
já é uma inovação relevante. Não se trata de incluir
membros externos num senado inoperante e irrelevante mas sim num verdadeiro órgão
de governo. E não se diga que outros estatutos também já prevêem
secções permanentes do senado. Ao que sei, não são verdadeiros órgãos
de governo, são apenas um ponto de passagem e de pré-discussão
de propostas entre as faculdades e o plenário do senado, que é quem
continua a ter, inadequadamente, as competências de governo.
Atribuir a uma secção do senado as funções de órgão
de governo na lógica do modelo profissional, à maneira do Porto, tem
a vantagem de ser uma solução conservadora com a tradição
e por isto menos polémica e de não distorcer muito a lei da autonomia.
Tem, por outro lado, a desvantagem de os seus membros terem que ser escolhidos
de entre os membros do senado. Podem, portanto, não ter a composição
mais adequada, na medida em que os membros do senado, para além das inerências,
não são escolhidos tradicionalmente com base naquelas características
pessoais exigíveis a membros de um verdadeiro órgão de governo.
Mesmo no caso do Porto, há um peso grande dos directores de faculdade. Mostra-me
a experiência da secção permanente da minha universidade que os
directores, tão sobrecarregados com os problemas das suas faculdades, têm
dificuldade em ver a universidade no seu conjunto.
A outra hipótese é a de um órgão distinto, o conselho de
governo. Não há receitas gerais para a forma de constituição
destes órgãos de governo, nem poderia haver, numa situação
tão diversificada. Num limite extremo, ao estilo anglo-americano, eles podem
ser constituídos apenas por membros externos. Como escrevi no meu livro,
não me parece possível nem desejável, no caso das universidades
portuguesas, dar-se um salto de tal comprimento em relação às
concepções ainda vigentes. Como se vê, não é o artigo
de Shattock que vem moderar uma eventual veia minha "managerialista".
Também as experiências europeias de introdução deste modelo
têm sido feitas por aproximação, numa perspectiva de compromisso.
A excepção é a Holanda, que é um exemplo extremo da adopção
de um modelo de gestão personalizada e profissionalizada, em que as funções
de governo competem a um conselho de supervisores composto por cinco membros
nomeados pelo ministro, todos externos à universidade e em que o órgão
colegial representativo da comunidade universitária é só consultivo.
Escrevi que, quanto ao conselho de governo, pode-se adoptar uma composição
mista, por exemplo uma composição tripartida: por inerência, os
directores das faculdades ou departamentos das universidades departamentais (apesar
das dúvidas que exprimi acima), mais um certo número de membros internos
escolhidos com base na competência política e igual número de
membros externos. Deve ser um órgão relativamente pequeno, com não
mais que vinte membros, trinta no máximo. O número de eleitos seria
tal que, tendo em conta o número de membros por inerência, se respeitasse
essa dimensão máxima. Isto faria com que, em média, o número
igual de membros externos representasse 25 a 35% do total de membros do conselho.
A selecção de membros externos tem problemas. Nos dois casos portugueses
de institutos universitários com órgãos de governo com membros
externos, eles são escolhidos em função de cargos específicos
em entidades relacionadas com os institutos. É discutível que seja
a melhor solução ou que seja facilmente adaptável a nível
central da universidade. Altos funcionários ou representantes institucionais
podem ter conflito de interesses e pouca disponibilidade para os assuntos da
universidade. Ao estilo anglo-americano, é preferível que os membros
externos sejam escolhidos pelo seu mérito individual e que estejam em condições
de independência para uma grande dedicação institucional à universidade,
que sintam isto como uma honra e um dever. Podem ser pessoas seleccionadas pelo
reitor ou pelo senado (ou por ambos) ou então, como se faz em muitos casos,
cooptados pelos restantes membros do conselho de governo. A solução
do Porto é deste tipo, porque os membros externos da secção permanente
do senado são eleitos pelo senado de entre os seus membros externos, os
quais são, em parte, designados pelo senado e, em outra parte, nomeados
pelo reitor.
Escrevi também que, mesmo no modelo profissional com papel central do conselho
de governo, o senado mantém uma função importante, como órgão
de representação da comunidade académica. A sua dimensão
poderá ir até cerca da centena de membros. A sua esfera de acção
deve ser de tipo académico, principalmente a política científica
e a organização geral do ensino. Além disto, deve ser um órgão
de acompanhamento e controlo da actividade do conselho de governo, pronunciando-se
sobre o relatório anual elaborado pelo conselho de governo e podendo emitir
propostas e recomendações ao conselho. Deverá competir também
ao senado a decisão sobre as matérias de índole tipicamente académica,
que não integrem o corpo de matérias políticas e estratégicas
da competência do conselho de governo. Creio que isto está em inteiro
acordo com o que Shattock chama "shared governance" e com a sua opinião
de que "as instituições trabalham melhor quando a governação é vista
como uma parceria entre as modalidades empresarial e colegial e quando o balanço
desta relação é inspirado por um objectivo comum".
Fica agora por discutir - que este texto já vai longo - a questão do
papel do reitor neste novo sistema de governação e a forma da sua designação. É assunto
que abordo no meu livro e que agora não posso repetir, remetendo o leitor
para o que escrevi na página 166 e na página 174 e seguintes, em que
proponho também um compromisso entre a actual lógica estritamente electiva,
que não garante obrigatoriamente a escolha de um reitor com verdadeira capacidade
estratégica e de líder dos outros órgãos de governo, com
uma lógica de escolha por competência em que o conselho de governo
desempenha um papel relevante.
A parte final do artigo de Shattock diz respeito à função dos
executivos e a um eventual exagero da liderança, ao estilo dos "chief
executive officers", referindo que os gestores de origem académica
têm dificuldade em exercer as suas funções no sentido empresarial,
contra o que chama a "retórica managerialista". Cita o caso das
dez universidades "top" em que a gestão dá ênfase ao
envolvimento colectivo em relação à dominância executiva.
Novamente, nada escrevi em contrário no meu livro. É certo que dou
grande importância à liderança - e abundam os exemplos entre nós,
a começar pelo meu caro interlocutor -, em que, no vazio de eficiência
política e estratégica da governação das universidades e
escolas, as experiências de qualidade se devem a casos excepcionais de capacidade
de liderança. Mas gasto largas páginas (144 e seguintes) a demonstrar
que liderança e participação são um binómio indissociável,
em particular nas universidades, mas hoje já também na cultura organizacional
de qualquer empresa ou instituição moderna.
Em suma, segundo Shattock, necessidade de governação eficaz, partilha
de responsabilidades e relações funcionais entre conselhos de governo
e senados, gestão participada. Da minha parte, acordo por inteiro, no essencial,
como penso estar bem demonstrado no meu livro.
17.11.2001
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