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A UNIVERSIDADE NA SOCIEDADE DO CONHECIMENTO (III) - A RELAÇÃO COM AS
EMPRESAS E AS UNIVERSIDADES EMPREENDEDORAS
João Vasconcelos Costa
No artigo anterior desta série sobre "A Universidade e a sociedade
do conhecimento", tratámos só da investigação, por
si só. Mas, para concluir, é preciso também discutir como é que
ela deve ser vista em termos da promoção da inovação e como
ver as relações entre as universidades e as empresas, relações
que hoje, em muitos casos, levam à própria concepção da
universidade como uma quase-empresa (universidades empreendedoras ou "entrepreneurial").
Numa conferência em 1999 perante o colégio de presidentes das universidades
americanas, Alan Greenspan, o bem conhecido presidente do "Federal Reserve
Board", afirmou que a nova economia "conceptual" já não é medida
por recursos naturais, matérias primas, tonelagem de produção
e outros parâmetros convencionais. Referiu que o peso real da economia americana,
a sua "tonelagem", diminiu durante toda a década de noventa, mesmo
com uma subida espectacular do produto nacional bruto. "O crescimento deveu-se
ao capital intelectual, ao talento humano, à creatividade, ao conhecimento
e à capacidade, largamente expandida, das pessoas e dos sistemas complexos".
Esta economia conceptual, componente significativa da sociedade do conhecimento,
gera-se em boa parte na universidade formadora, que transfere para o mundo empresarial
a mão de obra com novas competências, mas igualmente na universidade
criadora, que transfere para esse mundo exterior o conhecimento e a inovação.
Fá-lo em termos completamente novos, porque ela própria, a universidade,
mudou mas, principalmente, porque mudou radicalmente, na nova economia, o mundo
empresarial. As empresas têm com a universidade uma relação bidireccional:
são compradoras de educação e de investigação, mas são
também, cada vez mais, vendedoras de actividade universitária, já não
só na forma tradicional das universidades privadas mas também como
produtoras no domínio explosivo das "universidades de empresa" ("corporate
universities"). O aspecto das empresas como compradoras de formação é muito
relevante para a universidade e altamente lucrativo, como se vê pela experiência
de algumas das nossas escolas de economia e gestão, fornecedoras de formação
para executivos. Veja-se também a discussão deste tema no capítulo "A
universidade virtual" do meu livro "A universidade no meu labirinto".
Mas trataremos agora só da vertente compradora de investigação
das empresas.
Uma nota relevante é que, ao falar de empresas, não nos referimos apenas
ao sector privado. O Estado tem também um papel importante na relação
universidade-empresa, não só, obviamente, através das empresas
públicas, mas também, com alguma aproximação, por intermédio
de institutos públicos que são compradores e aplicadores directos de
conhecimento e tecnologia, nomeadamente no campo do ambiente, das obras públicas,
dos transportes, da defesa ou da saúde. Por outro lado, o Estado pode desempenhar
um papel intermediador ou consorcial nas relações entre as universidades
e as empresas quando os projectos envolvem também os laboratórios do
Estado.
As relações das universidades com as empresas podem ser muito diversas.
Em muitos casos, ficam-se por actividades de pouco valor acrescentado, como consultoria,
análise de qualidade, endogenização e aperfeiçoamento de
métodos e outras. Realisticamente, entre nós, ainda é importante
este contributo que as universidades podem prestar, porque o salto para a nova
economia e para a inovação é demasiadamente grande. Fazer as empresas
imitar bem já é bom, mas mesmo isto já requer muito saber fazer.
O que não significa que nos contentamos com esta situação rudimentar.
De parte a parte, empresas e universidade, tem que se caminhar rapidamente para
o que é decisivo e que é a inovação e o aumento da competitividade
na nova economia.
As universidades portuguesas têm experiências diversas na relação
com as empresas. Pela sua dimensão e impacto, destacam-se os casos do INESC,
uma associação entre o Instituto Superior Técnico e empresas de
telecomunicações e o IBET, também uma associação entre
o Instituto de Tecnologia Química e Biológica e diversas empresas.
Note-se que, em ambos casos, se trata de associações, quando a regra
geral hoje, como veremos, é a da constituição de empresas de interface
de que as universidades são sócias, com as responsabilidades de investimento
em capital de risco. Também as universidades periféricas, de índole
regional, têm experiência na relação com empresas da sua
região, com destaque para a Universidade de Aveiro, pela forma empreendedora
com que o está a fazer e por integrar o ECIU, o Consórcio Europeu de
Universidades Inovadoras.
Outro indicador positivo é que, no fim de 2000, a Agência de Inovação
estava a financiar 175 projectos, envolvendo 276 participações de unidades
de investigação e 253 de empresas, das quais, anteriormente, só 47
tinham actividade própria de investigação.
No entanto, em geral, a situação é insatisfatória, como se
vê pelo insucesso de bastantes outras experiências de associação
universidade-empresas. Nesta situação de divórcio entre a universidade
e o mundo económico (mas, importantíssimo, sem que o contrário
ponha em risco as missões tradicionais da universidade!) radica, em grande
parte, a situação que já vimos de estarmos sempre entre o 13º e
o 15º lugar da União Europeia no que respeita à qualificação
da mão de obra, à percentagem de emprego na indústria de alta
tecnologia ou ao esforço de investigação nas empresas.
E isto não obstante, como também vimos, um esforço meritório
de correcção, com duplicação do número de investigadores
em dez anos e com um grande esforço na formação de quadros de
alta qualificação. Por outro lado, é reconhecível uma maior
preocupação dos universitários com a "relevância" da
sua actividade, no contexto de uma retórica marcada de ligação à actividade
económica, que também tem o risco de ser um alibi para o Estado se
desresponsabilizar da universidade e deixar aos interesses estreitos do mercado
a regulação do sistema, podendo-se ir até à extinção
do que não tem rendibilidade imediata.
Sobre a relação entre a universidade e as empresas, a ideia feita -
e realista - é a de que as empresas não se interessam pela inovação
e não têm uma estratégia de longo prazo, que há falta de
empresários com cultura de inovação, com capacidade de provocar
e aproveitar a investigação e com o gosto do investimento de capital
de risco. As empresas têm défices de capacidade de pedido, quantas
vezes até incapacidade de organizar um caderno de encargos e carecem de
empresários esclarecidos e empreendedores, com um mínimo de formação
científica que lhes permita compreender razoavelmente o discurso científico
dos universitários. Inversamente, as empresas queixam-se de que os universitários
são teóricos desligados das realidades e do mercado e desinteressados
da vida económica. Os universitários têm falta de espírito
de marketing, de compreensão das situações reais e de linguagem
própria para tratar com as empresas. Estas percepções dificultam
o diálogo e a criação de um clima de confiança mútua,
mas correspondem à realidade.
É difícil haver relações de investigação entre
a universidade e as empresas se estas não tiverem a sua própria investigação,
que fica complementada pela investigação encomendada à universidade.
Por isto, é inegável que se deve fazer um esforço de desenvolvimento
científico do sistema empresarial existente mas o futuro desse desenvolvimento
passa prioritariamente pela criação ou instalação em Portugal
de novas empresas, com nova mentalidade, em particular em áreas modernas
e dinâmicas das tecnologias. Enquanto não se criarem as condições
favoráveis à criação endógena de novas empresas inovadoras,
um sector industrial tecnologicamente avançado e com prática da investigação
vai depender muito da instalação de empresas com origem estrangeira,
como aconteceu no "milagre" irlandês. Para isto, não bastam
argumentos bem intencionados. Os potenciais investidores, para além das
vantagens de mercado e de benefícios económicos e fiscais, querem ter
a prova de que há alguma experiência de "saber fazer", comprovada
por produtos de facto que testemunham a disponibilidade de mão-de-obra e
ambiente não apenas académicos.
A ligação entre a investigação e a empresa, nas nossas condições,
exige muito maior conhecimento da prática pela investigação, com
colocação efectiva na indústria, em estágios, de jovens ligados às
unidades de investigação ou delas oriundos, mesmo que, numa primeira
fase, apenas para aquisição das bases técnicas do diálogo
e para levantamento de problemas concretos. A resolução de pequenos
problemas, mesmo marginal à investigação, estabelece o clima de
confiança, suscita na empresa o interesse e a prova da utilidade da investigação
e permite partir daí para verdadeiros projectos científicos e tecnológicos.
O sentido prático do ensino, e por extensão da investigação,
facultando a ligação da universidade à realidade empresarial e
profissional, seria também facilitado pela contribuição para o
ensino de um corpo alargado de demonstradores (os "demonstrators" na
Inglaterra), ligados às actividades profissionais ou dotados de experiências
vincadamente técnicas, categoria que não se esgota na de professor
convidado, mais limitada actualmente por condicionalismos e critérios de
tipo académico, paralelos aos da carreira docente.
Mas, apesar de o actual divórcio não ser irreversível, é preciso
ter em conta que há factores de base, essenciais em cada um dos sectores,
que dificultam as relações, mesmo nos sistemas mais desenvolvidos sob
este aspecto:
a) as empresas têm uma perspectiva de curto prazo, enquanto que a da universidade é a
longo prazo. Pela mesma razão, as empresas estão sempre obrigadas à antecipação,
o que não acontece com as universidades, marcadamente inertes.
b) o conhecimento na universidade é geral e difuso, enquanto que nas empresas
ele é local e orientado. Dito de outra forma, o conhecimento universitário é um
saber colectivo e imóvel, contra o carácter de individualidade e mobilidade
do saber empresarial. Podendo isto parecer só teórico, pode dificultar
na prática a transferência de conhecimento de um para o outro sector.
c) a empresa é responsável perante os seus accionistas, que tipicamente
estão muito mais interessados nos seus rendimentos imediatos e que nem sempre é fácil
convencer da razão de investimentos de investigação envolvendo
universidades que nem sequer têm a mesma mentalidade do negócio.
d) a universidade tem uma lógica individual e a empresa tem uma lógica
de equipa. Na indústria, o indivíduo dilui-se num aparelho que só tem
por objectivo os da empresa. Na universidade, os seus membros praticam o individualismo,
cultivam a liberdade académica e o sistema de recompensas é personalizado,
mais dirigido ao indivíduo que à equipa.
e) são bem conhecidas as tensões na comunidade académica por aspectos
essenciais da investigação contratada, como sejam a confidencialidade,
a impossibilidade de publicação e, logo, o prejuízo curricular
e de carreira, o controlo do desenvolvimento da investigação, a obediência
a prazos estritos, a consideração do factor custo no processo, etc.
Por tudo isto, a relação entre a universidade e a empresa tem que ser
vista com cuidado. Ela é necessária, é um instrumento de uma missão
importante da universidade - a contribuição para o desenvolvimento
económico, para a inovação e para o aumento da competitividade
- mas não pode pôr em risco a qualidade do cumprimento das outras missões
da universidade nem desviar consideravelmente os professores e investigadores
do seu trabalho académico típico.
Idealmente (para a universidade), os projectos de investigação contratada
com a indústria deviam obedecer aos seguintes critérios: serem negociados
com o investigador responsável, que deve desejá-los, não impostos
pelas autoridades universitárias; não haver investigação
confidencial; abertura à participação de estudantes de investigação;
liberdade de publicação; e direitos de propriedade intelectual da universidade
e do investigador. Infelizmente, raramente os contratos com a indústria
são tão generosos para com os valores e interesses académicos.
As dificuldades de relacionamento, algumas estruturais, implicam também
que se definam formas de colaboração que as minimizem. É necessário
ter uma ideia clara do que podem ser as razões motoras da colaboração,
para que as propostas, de parte a parte, sejam apelativas. Os interesses da universidade
são, entre outros: o acesso a informações de mercado quanto à sua
investigação, o acesso a fundos privados (mas eu próprio já tive
uma proposta de uma empresa sem que ela se propusesse financiar a investigação
que pretendia, limitando-se à embalagem e comercialização do produto,
com pagamento de"royalties"!), o acesso a equipamentos e experiências
complementares dos da universidade, a oportunidade de futuro emprego para os
estudantes graduados. Da parte das empresas, há o interesse simétrico
no acesso a equipamentos e experiências, a economia de recursos permanentes
por "outsorcing" de investigação, a maior possibilidade de
contacto com a ciência de base e o recrutamento de quadros científicos
e tecnológicos qualificados. Desta listagem óbvia, ressalte-se o interesse
mútuo na utilização de laboratórios e equipamentos pesados
ou onerosos e a correspondente experiência humana. É talvez a mais
operacional e eficaz das razões de interesse, de parte a parte. Uma das
experiências positivas, mesmo entre nós (veja-se o caso do IBET) é a
da criação na universidade de laboratórios de aluguer ou de instalações
piloto, para utilização pelas empresas, com pessoal da universidade
ou, idealmente, com equipas conjuntas, entrando aqui também o componente
de treino.
Mas, na situação portuguesa, estas razões teóricas de interesse
mútuo são frágeis, na prática e na maioria dos casos. A menos
que emerjam novas relações com base no empreendedorismo, como veremos,
não parece haver propostas viáveis para um alargamento considerável
da relação entre as universidades e as empresas. A única receita,
e fraca, é porfiar, desenvolver as bases do diálogo e ir criando oportunidades
de colaboração, mesmo que pontuais. Com um sistema empresarial arcaico
e com uma universidade clássica, não se pode fazer milagres.
Um instrumento relativamente recente que veio potencializar as relações
de colaboração entre as universidades (ou as suas unidades de investigação)
e as empresas é a Agência de Inovação, uma empresa pública
de capitais da Fundação para a Ciência e Tecnologia e do IAPMEI.
A Agência, dotada de recursos financeiros assinaláveis, principalmente
provenientes do programa PRAXIS, promove a inovação mediante o apoio
a projectos em consórcio, a valorização dos resultados da investigação,
o incentivo à mobilidade e formação avançada de recursos
humanos, a participação em redes de cooperação tecnológica
internacional (Eureka, Iniciativa comunitária para as pequenas e médias
empresas, Iberoeka, Innovation), o apoio à endogenização de tecnologia
e a disponibilização de instrumentos de apoio à gestão da
informação. A Agência tem um papel importante na informação
tecnológica e no encaminhamento de ofertas e procuras de tecnologia, o que,
como vimos, é uma das deficiências do nosso sistema de relações
entre a universidade e as empresas.
Vimos no artigo anterior que, tipicamente nos sistemas desenvolvidos, as empresas
são compradoras à universidade de investigação aplicada,
que é, como vimos, um tipo de investigação vincadamente emergente
de necessidades reais da produção e do mercado. Por isto, é a
empresa que está melhor colocada para a definição do objectivo
e para a encomenda, com base num caderno de encargos. São projectos de investigação
com lógica própria, diferente da dos projectos típicos de investigação
fundamental financiados pelo Estado e que exigem ser tratados de forma contratual
diferente e com formas próprias de gestão.
No entanto, é crescentemente importante (mas praticamente inexistente entre
nós) o financiamento de investigação fundamental das universidades
pelo sector empresarial, que assim compreende que está a semear uma colheita
incerta de conhecimento mas potencialmente muito valiosa para a sua própria
investigação aplicada.
Isto hoje é muito manifesto em alguns sectores industriais de investigação
intensiva. Um caso flagrante é o da indústria farmacêutica e biotecnológica.
Enquanto que, nos Estados Unidos, o investimento em investigação na
indústria mineira e metalúrgica é de 2% das vendas, o da indústria
farmacêutica e de biotecnologia molecular é de 19%. Apesar de as dez
maiores companhias farmacêuticas terem financiado a sua investigação,
em 1996, com cerca de dois mil milhões de dólares, o resultado foi
apenas de 0,66 novas entidades moleculares por companhia. Nestas condições,
o financiamento interno de investigação por este sector focar-se-á ainda
mais na tarefa específica das empresas, isto é, a investigação
aplicada, tendo que se basear na investigação fundamental das universidades.
As universidades empreendedoras
Como vimos, as relações entre as universidades e as empresas em Portugal,
salvo raras excepções, são arcaicas e amadorísticas, envolvendo
muitas vezes empresas tradicionais e de fraca tecnologia e, também frequentemente,
contributos universitários muito abaixo do seu potencial científico.
Está-se a fazer algum esforço para ultrapassar esta situação,
nomeadamente, como se disse, através da Agência de Inovação,
mas não é este o tipo de relações que se deseja, entre universidades
modernas e empresas inovadoras e bem inseridas na economia actual da sociedade
do conhecimento.
Uma política integrada de inovação tem diversos componentes, do
lado empresarial, do lado universitário e dos institutos de investigação,
do lado financeiro. É necessário que haja boas solicitações
do mercado, veiculadas pelas empresas, mas também investigadores com espírito
empresarial e de inovação, com noção das novas características
dos mercados. São necessárias também soluções novas
de engenharia financeira e de capital de risco, bem como formas institucionais
modernas de produção colaborativa e transferência de conhecimento
e tecnologia.
A questão actual da inovação e da competitividade passa pelo empreendedorismo.
Ele é tão marcante hoje na relação da universidade com o
mundo empresarial que muitas universidades, mais do que lidarem com empresas
empreendedoras, são elas próprias também empreendedoras ("entrepreneurial
universities").
A noção central do empreendedorismo ("entrepreneurship"),
que já vem da teorização nos anos 30 por Schumpeter, é a
da incorporação de conhecimento novo no processo de inovação.
Ao mesmo tempo, para que o novo conhecimento tenha valor económico, tem
que ser embebido em novas recombinações dos recursos, humanos e materiais,
numa ligação estrutural entre a ciência e o sistema económico.
O empreendedorismo tem várias asserções. Pode limitar-se a um
empreendedorismo de rotina, em que, uma vez introduzida uma inovação,
a empresa tem ciclos longos de produção, fabricando o mesmo produto
com a mesma tecnologia. Os empreendedores inovadores fazem permanentemente coisas
novas, pôem em prática novas ideias, sabem aproveitar a transferência
de conhecimento das universidades e institutos de investigação. Finalmente,
a um nível superior, os verdadeiros empreendedores evolucionários,
capazes não só de inovação, mas também, pela aquisição
de competências de aprendizagem durante a sua formação, de terem
eles próprios a capacidade de perceberem a necessidade de novo conhecimento
e a iniciativa da sua solicitação e transformação em produção.
Estes graus diferentes de empreendedorismo dependem também da universidade
na medida em que dependem da aprendizagem. O empreendedor aprende de três
formas: ao primeiro nível, aprende métodos gerais (por exemplo, de
gestão) que lhe permitem fazer melhor o seu trabalho de nível básico.
Ao segundo nível, do inovador, precisa de adquirir competências analíticas
e uma formação científica sólida de base. Ao nível superior,
evolucionário, sai equipado com competências que lhe permitem operar
num contexto empreendedor máximo, com espírito de iniciativa, capacidade
de inovação, gosto pelo risco, liderança. Com isto, voltamos ao
primeiro artigo desta série, quando falámos nas novas formações
e na aquisição de competências.
O principal problema da universidade, neste contexto do empreendedorismo, é que
ela é essencialmente não-schumpeteriana e por isto, logo nas fundações
do problema da relação com as empresas, tem dificuldade nessas relações
porque tem uma lógica e um discurso radicalmente diferentes. O modelo schumpeteriano
do empreendedorismo, em que o desenvolvimento tem por base a inovação,
num processo em que o recurso ao capital financeiro se faz para recombinação
dos factores de produção envolvendo novo conhecimento, é oposto
ao modelo neoclássico, de lógica de "inputs" (financiamento,
número de trabalhadores, espaços e equipamentos, etc.), em que o crescimento é derivado
da acumulação dos factores de produção. A universidade tradicional é dominada
claramente por esta lógica de "inputs" (número de estudantes,
número de professores, infra-estruturas), oposta à lógica de inovação
schumpeteriana do empreendedorismo, em que o cresimento do "input" vem
na sequência e em consequência dos "outputs".
O empreendedorismo coloca vários desafios à universidade. Em primeiro
lugar, desafia a missão e a lógica tradicional das universidades, desafio
que, no extremo, leva as universidades a serem elas próprias empreendedoras,
mas com riscos evidentes para as suas missões tradicionais e para a sua
função humboldtiana de centros desinteressados de saber e de cultura,
sem sujeição a interesses utilitaristas. Em segundo lugar, o alinhamento
do pessoal universitário com o empreendedorismo é difícil, pelas
características essenciais da cultura académica. Finalmente, dadas
as dificuldades da transferência de conhecimento e por a aplicação
desse conhecimento ter um forte componente regional, são as universidades
mais inseridas num contexto regional (é o caso do nosso exemplo de empreendedorismo
da Universidade de Aveiro) que mais facilmente podem dar resposta aos novos desafios
do empreendedorismo - e daí a importância dos parques tecnológicos
e de empresas anexos às universidades empreendedoras, mais frequentemente
nas pequenas cidades universitárias do que nos grandes centros.
O que significa então uma universidade empreendedora? Novamente,
podemos falar de níveis diferentes. Mais rudimentarmente, como serão
provavelmente, em primeira fase, os exemplos portugueses, isto significa que
a interacção da universidade com o meio segue critérios de empreendedorismo,
sem que isto afecte o carácter tradicional e as missões da universidade. É afinal
o que discutimos atrás, no sentido de as relações entre a universidade
e as empresas terem "valor acrescentado" e se basearem na inovação.
Mesmo a este nível, é importante defender a actividade académica
das pressões utilitaristas em exagero, ao mesmo tempo que as novas relações
empreendedoras se façam com a lógica, mentalidade e processos que lhe
são próprias. É por isto que as universidades devem criar (como
na Universidade de Aveiro) empresas de interface e de incubação
com pessoal próprio, de mentalidade empresarial, à margem da investigação
académica, embora socorrendo-se dela. É perigoso, porque lesivo das
outras missões da universidade, além de ser ineficaz, que as relações
com as empresas se baseiem nas estruturas académicas convencionais.
A um segundo nível, a universidade empreendedora caracteriza-se por o seu
pessoal e estudantes serem eles próprios empreendedores e treinados para
tal e por a universidade criar as suas próprias empresas ou facilitar a
sua criação pelo seu pessoal, para incorporação empreendedora
da sua investigação, em sociedade com outras ou com fornecedores de
capital de risco. A atitude empreendedora permeia a universidade, dos professores
aos estudantes, como um estado de espírito e uma forma de ver a ciência
e a sociedade. Finalmente, no grau mais alto, é a própria universidade,
como organização, que se torna empresarial e empreendedora, nos valores
do seu ensino e investigação, nas suas práticas, na sua governação,
gestão e políticas.
Os tipos e formas de ligação às empresas das universidades empreendedoras
são os mais variados: constituição de sociedades de capital de
risco com empresas financeiras, parques de ciência e empresas junto aos
campus, incubadoras de empresas, nomeadamente de empresas constituídas pelos
professores e estudantes, centros de transferência de tecnologia, facilidades
para congressos e reuniões empresariais, serviços de consultoria, serviços
de assistência à gestão das novas empresas, formação "à medida",
colocação de jovens investigadores e estudantes graduados nas empresas,
etc.
Há exemplos de todos os tipos de universidade empreendedora por toda a parte.
Claro que principalmente nos Estados Unidos, mas também, marcadamente, nos "tigres
da Ásia" e cada vez mais na Europa. Veja-se, por exemplo, os "links" às
universidades empreendedoras europeias membros do Consórcio Europeu de Universidades
Inovadoras a partir da sua página www.eciu.org,
entre as quais a Universidade de Aveiro (embora a um nível ainda baixo -
felizmente?! - de empreendedorismo. Digo felizmente, porque não se compromete
a qualidade académica da universidade).
A Universidade de Aveiro, reconhecidamente uma das universidades portuguesas
mais inovadoras, criou uma empresa para as relações com o mundo empresarial.
Ela é responsável pela incubadora de empresas da universidade, com
mais de uma dezena de novas empresas já criadas, e por iniciativas tais
como cursos de empreendedorismo, procura activa de oportunidades de contratação
de projectos com empresas, criação de uma estrutura de desenvolvimento
regional de base empresarial e organização de um círculo universitário
como lugar de encontro entre os universitários e os empresários da
região.
A tese máxima da universidade empreendedora é que os empreendedores
que vão fazer uso do conhecimento produzido no sistema científico,
incluindo as universidades, devem ser produzidos no interior desse sistema. Como
já largamente discutimos, as universidades modernas devem ser empreendedoras
ao menos neste aspecto, o de facultarem aos seus diplomados as competências
para o empreendedorismo. Mostra a experiência que a incorporação
empreendedora de conhecimento é feita mais eficazmente por indivíduos,
com novas firmas, do que por empresas já estabelecidas. Mesmo numa universidade
empreendedora em mais alto grau, é relativamente ineficaz que a universidade
queira ela própria transformar o seu conhecimento em produção
inovadora. Deve preferencialmente fazer, como vulgarmente nos Estados Unidos,
a transferência para pessoas (professores ou estudantes) a começar
uma nova empresa ou então criar uma nova empresa mas, como já se disse, à margem
da vida académica tradicional e com outra mentalidade.
Um bom exemplo é o da biotecnologia, que, nos Estados Unidos, cresceu até mais
de 700 empresas só em 15 anos. A maioria destas empresas floresceu á volta
de universidades, fundadas por ex-alunos ou professores com capacidade de invenção
e também espírito empresarial. Para não falar do exemplo da importante
firma alemã Qiagen, que nasceu de uma tese de doutoramento!
De facto, o sucesso de uma universidade empreendedora mede-se em grande parte
pela sua capacidade em facultar aos seus diplomados as condições para
a criação de empresas inovadoras. A universidade deve treiná-los
em três dimensões: como técnico-profissionais, como gestores e
como empreendedores. Um bom exemplo é o do MIT que, sem perder a sua qualidade
científica e pedagógica, prepara os seus estudantes para o empreendedorismo
de tal forma que, até 1994, os seus ex-alunos criaram cerca de 4000 empresas,
com mais de um milhão de postos de trabalho e com um produto anual de cerca
de 250 mil milhões de dólares.
Como se passará em Portugal? Já vimos que são as universidades
periféricas, com os seus campus ampliáveis a parques de empresas, com
a sua população académica mais jovem e mais motivada, com maiores
pressões de um meio regional que lhes está próximo, que provavelmente
estão em melhores condições para experiências de empreendedorismo.
Há dias, recebi de um leitor da Universidade de Évora (creio que jovem)
uma mensagem em que me dizia "ter uma proposta na reitoria para a criação
de uma empresa com objectivo de, em parceria com empresas de tecnologias de informação
e de telecomunicações, desenvolver soluções e implementar
projectos avulsos, que vão existindo, mas sem uma integração e
sem os benefícios directos, em termos de desenvolvimento de competências
em TIC, que fiquem na região". Pelos vistos, germina uma nova mentalidade.
Ao falar-se de empresas, como se está já longe das fundações
e associações de concepção académica que conformaram
as relações das universidades (principalmente as tradicionais) com
as empresas vinte anos atrás.
Mas este mar é todo um mar de rosas? Receio que não. Tentei alertar,
aqui e ali, para os riscos que correm as missões tradicionais da universidade
e a sua função cultural, bem como para o perigo de uma demasiada preocupação
com a ligação às empresas conduzir à desresponsabilização
do Estado e à entrega das universidades às regras e interesses do mercado.
Mas isto é como muitas outras coisas, por exemplo como a globalização:
goste-se ou não, não se pode evitar nem enfiar a cabeça na areia.
O que há é que ter consciência dos riscos e tentar minimizá-los,
aproveitando o que de melhor possa ter o inevitável.
24.3.2002
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