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doutoramento sacrificial João Vasconcelos Costa Há uns tempos, publiquei no Professorices um texto sobre as grandes discrepâncias que há entre nós em relação ao doutoramento. Impressiona-me muito quando vejo que o doutoramento foi o alívio de um fardo ou ouço que o doutoramento não dá saúde a ninguém. Isto é típico das pessoas das humanidades. Nas ciências e tecnologias, o doutoramento evoluiu imenso. Cito: A minha experiência pessoal, com mais de uma dezena de orientações de doutoramentos, é na minha área, lato sensu, as ciências e tecnologias. Começo por uma banalidade: há a fase de elaboração do trabalho e a fase de escrita. Se as distingo, é porque a noção de sacrifício pode ser diferente numa fase e noutra. Tive doutorandos entusiasmados e muito dedicados ao seu trabalho que, na redacção final, tiveram dificuldades por falta de gosto pela escrita. Mesmo assim, não me lembro de nenhum ter demorado mais de três meses a escrever a tese, com o meu estímulo e correcção atempada. O que eu nunca admitiria num meu doutorando é que sentisse como sacrifício a fase de elaboração do trabalho. Obviamente que não servia para a vida futura de investigador ou professor. Ainda nas ciências, nota-se uma grande evolução. Ainda há poucos dias, assisti a um doutoramento com tese em inglês e excelente arguência, também em inglês, por um especialista estrangeiro. Obviamente, nem uma única crítica sobre picuinhas formais. Exemplo mais marcante, totalmente permitido por lei, foi a do último júri em que participei e fui arguente, porque o trabalho tinha sido feito em boa parte no meu laboratório. Os capítulos da tese foram: uma introdução geral e revisão da bibliografia, com meia centena de páginas; a reprodução em fotocópia de três artigos publicados em revistas internacionais; um outro capítulo com os resultados mais recentes, sob a forma de um manuscrito enviado para publicação; um capítulo final, de poucas dezenas de páginas, com uma discussão global. Isto também tem uma consequência importante na arguência. O jurado tem que assumir uma atitude modesta de auto-contenção, porque o trabalho já foi aprovado, pelos artigos publicados, por especialistas internacionais no assunto. Sei que em outras áreas, mais tradicionalistas e com doutoramentos fora de moda, pode mesmo ser um fardo, frequentemente referido à escrita da tese. Nas humanidades, parece-me que a escrita faz parte da própria elaboração do trabalho. Nas ciências, as experiências consumam o trabalho; nas letras ou no direito, parece-me, o resultado do trabalho é escrito. Ou estou enganado nisto que me parece evidente? Assim, sendo, julgo que só um "abuso" dessa escrita é que pode ser um sacrifício, nunca a escrita do próprio trabalho de investigação, que sempre senti como um grande gosto. Por abuso, refiro-me, por exemplo, à exigência de longas introduções de revisão bibliográfica ou a discussões irrelevantes para a tese. Pelo que ouço, isto ainda acontece. A propósito deste tipo de "abuso", anoto que, às vezes, é ao contrário: muitas vezes fui eu, como orientador, a cortar páginas e páginas de palha escritas pelo meu estudante de doutoramento. A concisão da escrita faz parte da educação científica. Em 2003, tivemos 836 doutoramentos em Portugal e mais 166 portugueses obtiveram o seu doutoramento no estrangeiro. Actualmente, temos mais de 6000 doutorandos matriculados em universidades portuguesas. Felizmente, o doutoramento está a transformar-se em coisa trivial, de que os próprios quase nem falam. Apesar das idiossincrasias de algumas escolas tradicionalistas, temos que estabelecer um padrão, que não pode deixar de ser o da duração. Uma tese de doutoramento, seja em que área for, é o que corresponde a um esforço de investigação de três anos, a tempo inteiro. Não pode haver diferenças entre áreas, elas é que têm que ajustar os seus padrões a esta regra. Em relação aos doutoramentos em letras e direito, extraio alguns comentários a essa minha entrada no defunto blogue Professorices:
A outra questão importante que se levanta em relação ao doutoramento diz respeito aos seus públicos. Até há uma dúzia de anos, eram principalmente assistentes, com muito corpo dado ao manifesto. Conheci assistentes quarentões que me diziam que não estavam dispostos a aceitar o meu regulamento de doutoramentos porque já tinham dado muito à casa. Há pouco tempo, li uma mensagem de um assistente doutorando dizendo que o doutoramento nada acrescentava ao seu currículo. Fui vê-lo e era zero! Ai, a sobranceria dos senhores assistentes! Em contrapartida, temos hoje centenas de bolseiros de doutoramento, não vinculados às universidades. Conheço muitos, a sua dedicação à investigação, a sua isenção em relação aos vícios institucionais dos assistentes universitários. Alguns preparam os seus doutoramentos em institutos universitários anexos que são verdadeiros institutos de investigação e, fora da vivência típica das faculdades, adquirem hábitos de verdadeira profissionalização científica. O mal é que, depois, as universidades não os recrutam, enquanto aguardam pelo doutoramento dos seus "meninos", os assistentes. "Delenda, assistentes". Não digo que as universidades portuguesas possam viver só com docentes doutorados. Nem as melhores universidades americanas o fazem, mas apenas contratam como "teaching assistants", a tempo parcial, os melhores "graduate students". |