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CONSIDERAÇÕES SOBRE
A POSIÇÃO DO CRUP SOBRE A DECLARAÇÃO DE BOLONHA
João Vasconcelos Costa
Não sendo meu hábito apenas criticar, quero começar por enaltecer
a iniciativa do CRUP, dando a conhecer a sua posição sobre o processo
de Bolonha (prefiro dizer processo, porque as mudanças em curso na Europa,
em grande parte catalisadas pela Declaração, já importam muito
mais do que a simples Declaração). Na grande maioria dos países
signatários, foram os governos que desencadearam o processo de discussão
e de propostas de reforma, ainda que associando normalmente as universidades
aos grupos de trabalho ou de "follow-up" constituídos para
este efeito. Grupos destes, formalmente constituídos e com grande actividade,
existem, que eu saiba, pelo menos na Áustria, na Bélgica tanto
flamenga como francófona, na Dinamarca, na Espanha, na Alemanha, na
França, na Noruega, na Suíça e na Suécia, bem como um
grupo misto dos países bálticos. Em Portugal, o Ministério
tem estado, aparentemente, alheado do processo de Bolonha e foi o CRUP a
ter a palavra. Honra lhe seja feita.
Lembre-se, aliás, que o Ministério teve desde o início alguma
reserva em relação à declaração. Em comentário
de 21 de Maio de 1999 à Declaração de Bolonha enviado às
universidades, o então Director-geral considerava que a tendência para
dois ciclos (sistema "two tier") era "uma compreensão sobre-simplificada
da realidade"; interrogava-se, em dúvida, sobre o que significa um
processo de convergência e sobre o que é uma área europeia de
ensino superior (o que creio que não suscitava dúvidas a mais ninguém);
não aceitava o termo "convergência" como indicativo de uma
estrutura comum de graus; manifestava reserva e receio em relação à "adopção
de um sistema de graus facilmente legível e comparável"; e declarava
inaceitável para Portugal o objectivo de adopção de um sistema
em dois ciclos. Mas também é verdade que é o mesmo responsável
que, em entrevista recente, reconhece que "há dois anos não acreditava
que a estrutura dos sistemas pudesse evoluir tão rapidamente" e, em
entrelinhas, sugere que a posição do CRUP não acompanha essa evolução.
Este alheamento das instituições, com a inércia do sistema universitário,
coloca-nos na cauda do processo europeu de debate pós-Bolonha. Estou mesmo
convencido de que a esmagadora maioria dos universitários e dos parceiros
sociais da universidade tem quase total desconhecimento do conteúdo da Declaração,
da sua importância e do movimento generalizado de reforma do ensino superior
europeu que a tem por referência. Estamos dois anos atrasados.
Ainda antes ou na sequência de Bolonha, foram preparados relatórios
importantes de reforma do ensino superior, nomeadamente o relatório Dearing
na Inglaterra, o relatório Attali na França, o relatório Martinotti
na Itália, o relatório Bricall na Espanha ou o relatório MjØ na
Noruega. Creio que são praticamente desconhecidos em Portugal, apesar de
serem materiais inestimáveis para um debate nacional.
Os Senhores Reitores certamente conhecem esta e a demais extensa documentação
que tem resultado desse debate europeu. Para não me alongar sobre uma lista
enorme de iniciativas nacionais na generalidade dos países signatários
(incluindo os "Bologna days" em muitas universidades), refiro-me apenas às
conclusões do Forum 2000 em Bruxelas da CRE e da Confederação
das Conferências de Reitores, do Seminário de Leiria sobre os ECTS,
do Seminário de Lisboa sobre acreditação, do Seminário de
Malmö sobre educação transnacional, do Seminário de Helsínquia
sobre os graus de bacharel e da Convenção de Salamanca. Estes documentos,
que são de fácil acesso e certamente na posse dos reitores, devem ser
largamente divulgados e discutidos nas universidades, bem como os dois principais
relatórios preparados para Praga (o "Trends in Learning Structures
in Higher Education II" e o "Furthering the Bologna Process",
este último da responsabilidade do Prof. Pedro Lourtie). Estou certo de
que o CRUP está interessado em promover esse debate, mesmo que já com
grande atraso. Vamos discutir pós-Praga-2001 em vez de pós-Bolonha-1999.
O CRUP devia estar bem colocado para incentivar em Portugal uma discussão
regular sobre a política universitária, neste e noutros temas, tal
como fazem muitos dos seus congéneres europeus. Julgo é que não
tem os meios adequados e que era necessário e urgente que fosse criado na
dependência do CRUP um gabinete de estudos, que produzisse documentação
para uma reflexão política e estratégica e que divulgasse e fizesse
discutir a abundante informação internacional hoje disponível.
Julgo, talvez com imodéstia, que acumulei uma grande soma de informação
e reflexão sobre a política universitária e que tenho acompanhado
todo o debate europeu ante e pós-Bolonha. Creio que isto ficará bem
demonstrado num livro sobre a universidade portuguesa que acabei de escrever
em Março mas que, por razões editoriais, só será publicado
em Setembro. Por isto, ponho-me à disposição do CRUP para colaborar
num debate português que falta clamorosamente.
1. A situação portuguesa
A proposta do CRUP é relativamente mínima, talvez porque partilhando
a ideia de que o sistema português só precisa de pequenas alterações
para corresponder ao objectivo de Bolonha. De facto, em várias descrições
do sistema português, em documentos internacionais, o nosso sistema de ensino
superior é apresentado como um sistema "two tier", na linha de
Bolonha. Discordo, porque penso que temos uma situação atípica.
Não contando com o doutoramento, temos três graus, bacharel, licenciado
e mestre, quando os sistemas típicos "two tier" só têm
dois, um de pré e outro de pós-graduação. Para evitar confusões
de nomenclatura, vou referir o primeiro como grau B (de "bachelor")
e o segundo como grau M (de "master"). Não é claro qual dos
graus portugueses, bacharel ou licenciado, é que corresponde ao "standard" internacional
do grau B ou à tendência de reforma dos sistemas europeus.
A outra atipicidade tem a ver com a duração dos cursos. Num sistema "two
tier" típico, os graus B e M correspondem a um esquema 3+2 (Inglaterra,
Irlanda, Dinamarca, Suécia, Finlândia, Islândia, Noruega, Polónia,
novo sistema alemão, austríaco, italiano e francês, depois da
criação do "mastaire"), ou 4+1 (França antes da reforma
actual e alguns cursos na Irlanda), excepcionalmente 4+2 ou 3+3 (República
Checa, Letónia e Lituânia, alguns cursos na Noruega). Nos países
com sistema "one tier", maioritários em Bolonha, mas hoje já não,
a duração típica dos cursos pré-doutorais era de cinco anos.
Em Portugal, combinamos a estrutura em dois níveis (mas com dois graus,
bacharelato e licenciatura, no primeiro nível) com a duração prolongada
típica dos sistemas "one tier", na medida em que a grande maioria
das nossas licenciaturas demora cinco anos. Sobre isto, acresce uma duração
de dois anos do mestrado, que só se verifica nos países com grau B
de 3 anos, em vez dos nossos 4, geralmente 5. Daqui resulta, em regra, uma duração
total de 7 anos para o nosso mestrado, contra o padrão europeu de 5 anos.
Podemos ter, portanto, um esquema 3+1+2 ou 3+2+2 para a sequência bacharel-licenciado-mestre
e um esquema 4+2 ou 5+2 para a sequência licenciado-mestre. Se um dos objectivos
essenciais de Bolonha é a clareza do sistema de graus, não há dúvida
de que o nosso é dos mais obscuros. Só isto, a meu ver, justifica uma
reforma muito mais profunda e fundamentada do que a proposta do CRUP.
2. A proposta L4
O ponto essencial da proposta do CRUP é a de um grau B de 4 anos, com
a designação de licenciatura, presumindo-se a extinção do
bacharelato. Quando a tendência geral, como veremos, é para um grau
B de 3 anos, e na falta de fundamentação da proposta do CRUP, tento
adivinhar as razões para esta proposta:
a) Porque entende que um grau com duração de três anos não
tem relevância para o mercado de trabalho? Penso que isto exigiria estudos
que creio não terem sido feitos e discussão com os representantes das
entidades empregadoras e das associações profissionais. Mas lembro
a boa aceitação de muitos bacharelatos pelo mercado de trabalho, conferindo
uma formação prática e aptidões de responsabilidades de nível
intermédio.
b) Porque aproveita o facto de haver um número, embora minoritário,
de licenciaturas de quatro anos, estabelecendo uma transição para um
passo seguinte de um grau B de 3 anos? Pode parecer uma atitude prudente e experimental,
mas tem um risco considerável, que é o da simples reformulação
das licenciaturas de 5 anos em licenciaturas de 4, por contracção dos
currículos. Esta mudança na arquitectura do ensino não deve ser
uma simples operação de corte e colagem, de contracção ou
rearrumação das actuais licenciaturas de cinco anos. O que se deve
pretender é uma verdadeira revisão dos currículos escolares, mesmo
os das licenciaturas de 4 anos, coerente com os novos objectivos do sistema,
como discutirei adiante, e não apenas um rearranjo dos currículos actuais,
comprimidos para caberem numa duração mais curta.
c) Porque as universidades preferem abolir um grau típico do politécnico,
o bacharelato, em vez da licenciatura, tradicionalmente mais universitária?
Não quero crer que possa jogar nesta questão a rivalidade entre os
dois subsistemas (a meu ver, com mais responsabilidades para o politécnico).
No entanto, é o próprio politécnico que favorece esta eventualidade,
na medida em que tem desvalorizado o bacharelato, conferindo cada vez mais licenciaturas
ou usando o bacharelato só como fase de licenciaturas bietápicas.
d) Porque se diz frequentemente que a preparação dos alunos que chegam
ao ensino superior é deficiente e 3 anos é um período demasiadamente
curto para compensar essa deficiência? Não creio que esteja provado
(com a eventual excepção da matemática) que a preparação
final do nosso secundário seja inferior à de outros países. Até qualquer
professor americano se queixa da falta de preparação dos novos alunos
universitários. A minha experiência pessoal de pai de um estudante
que está a terminar o secundário é que o nosso ensino secundário
progrediu apreciavelmente em qualidade e nível de formação dos
alunos.
e) Para não desvalorizar socialmente a imagem do novo grau único B,
que, se fosse de 3 anos, seria tido como bacharelato e não licenciatura,
na nossa tradição de nomenclatura? Mas o termo "bachelor" é só indicativo.
Os países escandinavos chamam "candidato" ao "bachelor" e
a França designa como "license" o grau B de 3 anos. Nada impede,
portanto, que se dê em Portugal outra designação ao grau B, incluindo
a nossa tradicional de licenciatura, mesmo para um grau de três anos. Isto
foi o que fizeram os italianos, que designaram o seu novo grau de 3 anos com
o nome tradicional de "laurea" dos seus anteriores cursos de 5 anos,
agora transformados em mestrado.
No meu livro que referi atrás, também eu defendi a uniformização
em 4 anos das nossas licenciaturas. Mas, diferentemente do CRUP, ligo esta proposta
ao encurtamento também do mestrado, para um ano (esquema 4+1), de forma
a que a duração total dos estudos pré-doutorais seja de 5 anos,
o que é, desde a reunião de Bolonha, uma ideia largamente consensual.
Apesar de ser, da minha parte, uma proposta recente, hoje tenho dúvidas,
em função da evolução a que se tem assistido na Europa, e
tendo a favorecer um esquema 3+2.
É público que o sistema 3-5-8, aceite unanimemente na reunião
da Sorbonne, não mereceu consenso em Bolonha. Daí que a Declaração
de Bolonha tenha estabelecido apenas o tempo mínimo, de 3 anos, e que praticamente
toda a documentação subsequente fale de um grau B de duração
entre 3 e 4 anos.
Ter-se estabelecido uma duração de 3 anos para o grau B praticamente
não afectaria a minoria dos países já com sistema "two tier". É a
duração tradicional na Inglaterra, na Irlanda, nos países escandinavos
e na Islândia, na República Checa (com algumas excepções
de bacharelatos de 4 anos). Afectaria fundamentalmente Portugal, como se viu.
As dúvidas entre os 3 e os 4 anos vinham principalmente dos países
com sistema "one tier", que ainda eram a maioria em Bolonha. Ora o
que acabou por se verificar foi que a grande maioria destes países, com
cursos de 5 anos, transformaram esses cursos em grau M e criaram novos graus
B com duração de 3 anos. É o que já aconteceu ou está já planeado
na Alemanha, na Áustria, na França, na Itália, na Letónia,
na Lituânia, na Holanda e na Polónia e, ao que julgo saber, parece
ser a ideia dominante na actual discussão na Espanha, na Bélgica e
na Suíça.
Concluindo, como afirmam os dois principais relatórios apresentados em Praga,
a tendência clara é no sentido do primeiro grau B com duração
de 3 anos. Sendo assim, a proposta do CRUP, de um grau B de 4 anos, prejudica
a competitividade e atractividade do sistema português, não facilitando
a mobilidade dos estudantes, um dos objectivos essenciais da Declaração
de Bolonha. Porque é que um estudante estrangeiro há-de querer vir
tirar em Portugal um curso que pode fazer em menos um ano e com o mesmo reconhecimento
internacional na maioria dos países europeus?
3. O mestrado
A duração total de 5 anos para o grau M, desde a entrada no ensino
superior, é hoje quase um "standard" mundial, seja na versão
4+1 (B+M) mais vulgar nos Estados Unidos, seja na versão 3+2 mais corrente
na Europa. Ao propor o grau L4 mas mantendo o mestrado de 2 anos, o CRUP continua
a afastar-se dos padrões, aumentando em um ano a duração total
do grau M (mestrado). Novamente, isto lesa a competitividade e a atractividade
do nosso sistema, o que me parece ser ainda mais importante a nível do mestrado
porque é um nível em que já se começam a atrair e fixar bons
candidatos estrangeiros a doutoramento posterior, com eventuais futuras carreiras
em Portugal. Ou adoptamos um esquema 3+2 ou um esquema 4+1 (B+M), mas não,
a meu ver, um esquema 4+2, como proposto pelo CRUP.
A posição do CRUP é omissa em relação à orientação
dos mestrados. Eles têm entre nós uma tónica essencialmente académica
e científica, enquanto que, no processo de Bolonha, ganha força a coexistência
de mestrados vocacionais, com objectivos profissionalizantes, formando especialistas
com grau mais elevado de conhecimentos, aptidões e competências, capazes
de assumir funções profissionais que exigem um nível elevado de
responsabilidades, iniciativa, capacidade de decisão e liderança. Neste
sentido, creio que se deve diversificar o formato dos mestrados. Por exemplo,
no caso dos mestrados profissionalizantes, a exemplo dos usos americanos e de
alguns países europeus (nos cursos longos das “Fachhochschulen” alemãs,
no novo "mastaire" francês, na Lituânia, na Suécia e
em muitos mestrados ingleses) a tese académica de investigação
pode ser substituída por um período de estágio profissional tutoriado,
com elaboração de uma minitese de revisão crítica da bibliografia
e do trabalho de estágio.
Esta tendência tem a ver, em boa parte, com o facto já apontado de
a maioria dos países com sistema "one tier" antes de Bolonha estar
a transformar os seus graus de 5 anos em mestrado. Também neste aspecto
a posição do CRUP se afasta de uma tendência marcante, ao propor
para algumas áreas, designadamente as engenharias, o grau B (licenciatura
de 4 anos) mas acrescentado de um ano de pós-graduação complementar. É uma
proposta que me parece que não ajuda à clareza do sistema de graus,
o objectivo de Bolonha e que tem o aspecto bizarro de a duração efectiva
de estudos ser superior à duração típica do grau que é conferido.
Nem a Declaração nem o processo que se lhe segue em muitos países
excluem que possa haver mestrados contínuos, de 5 anos, sem uma saída
intermédia de grau B. Mesmo nos países de sistema "two tier" antes
de Bolonha, já esta situação era contemplada para alguns cursos
(engenharia, arquitectura, veterinária, para não falar no caso especial
da medicina), como, por exemplo, na Dinamarca, na Finlândia, na Irlanda,
na Islândia e na Noruega. No caso das engenharias, é esta também
a proposta das duas associações de escolas de engenharia, a SEFI e
a CESAER. Assim, julgo que os cursos para os quais o CRUP propõe uma licenciatura
mais um ano de estudos pós-graduados devem corresponder ao grau de mestrado.
Apesar de haver uma tendência aparentemente maioritária para mestrados
integrados nas engenharias, há também experiências de um grau
intermédio, de tipo B, como é o caso da Inglaterra. Julgo que, se for
revista a posição do CRUP no sentido de um grau B de 3 anos em vez
da sua actual proposta de licenciatura de 4 anos, devia ser estudada também
a sua aplicação às engenharias, retomando uma velha experiência
(a dos engenheiros técnicos) que, ao que sei, era valorizada pelo mercado
de trabalho. Mesmo que um grau B nas engenharias não tenha objectivos profissionalizantes
autónomos, tem sempre a vantagem da flexibilidade, com promoção
da mobilidade, da facilitação da aprendizagem ao longo da vida e de
facultar mais facilmente ao estudante percursos individuais variados.
4. Mais do que uma questão de anos
Uma das propostas mais relevantes do CRUP, que quero enaltecer, é a
de "iniciativas no sentido de, horizontalmente por ramo de saber, encontrar
(…) os parâmetros aceitáveis entre os quais podem variar – com
garantia de alta qualidade científica, pedagógica e adequação
profissional – as formações conducentes à obtenção
do 1º grau". O meu aplauso a este ponto da posição do CRUP
sobreleva as críticas a outros pontos.
Com efeito, há por vezes a tendência para reduzir a uma questão
de níveis e duração a recomendação de Bolonha quanto
ao esquema em dois níveis, esquecendo a frase chave que é "o grau
conferido após o primeiro ciclo deve ser relevante para o mercado europeu
de trabalho como nível adequado de qualificação".
Espero que o CRUP lance um grande debate sobre a questão dos "outcomes" educacionais
e da empregabilidade, que quase exige, entre nós, uma revolução
cultural na universidade. A generalidade das nossas licenciaturas está organizada
com o objectivo de formar profissionais especializados. São predominantemente
licenciaturas de banda estreita e exclusivamente centradas na aquisição
de conhecimento. Pretende-se que a multiplicação e excessiva especialização
das nossas licenciaturas tem a ver com a ilusão da correspondência às
exigências do mercado de trabalho, mas em regra a universidade propõe
novos cursos sem qualquer diálogo com os empregadores, decidindo ela o que
esse mercado quer. Também é bem sabido que nem sempre são esses
nobres motivos a presidir à criação de sempre mais novas licenciaturas.
As licenciaturas são muitas vezes fruto do simples desejo de satisfação
de interesses pessoais, de afirmação de grupos de professores, de atribuição
de responsabilidades docentes aos jovens professores que se vão formando,
até mesmo da criação de focos de poder nas faculdades.
É só para clarificação de pensamento, porque obviamente não é novidade
para os Reitores, que escrevo que a velocidade de evolução da tecnologia
e da ciência e a mutabilidade dos perfis profissionais tornam rapidamente
obsoletas formações universitárias baseadas exclusivamente na
aquisição de conhecimentos. O que se pede às universidades é que
treinem os graduados para poderem fazer a aprendizagem de inserção
no trabalho o mais rápida e mais eficientemente possível. E que lhes
dê instrumentos para poderem fazer o mesmo sempre que se lhes colocarem
problemas concretos, sempre que tiverem que adquirir novas informações
e competências. O que se mede à entrada no mercado de trabalho são
mais aptidões e competências que informações e, nas aptidões
e competências, fundamentalmente as transversais – a mentalidade científica
e de rigor, a capacidade de raciocínio e de análise, a imaginação
criadora, a capacidade de continuar aprendendo, a adaptação crítica
a novas situações, a liderança e a capacidade de condução
de processos sociais, o domínio das novas tecnologias da informação
e, cada vez mais na era da globalização, a capacidade de comunicação
e o domínio de línguas.
Neste sentido, a proposta de grau L4 do CRUP, se porventura se baseia no aproveitamento
do reduzido número de actuais licenciaturas de 4 anos, não é realista,
porque essas licenciaturas não correspondem em regra, em "outcomes",
aos requisitos actuais e ao processo de Bolonha.
Parece-me ser hoje consensual em todo o mundo que, com excepção do
nível especial do doutoramento, o mercado de trabalho pede essencialmente
dois níveis de formação (e eventualmente um nível inferior,
como o dos diplomas de um ou dois anos facultados pelos Colleges for Further
Education ingleses e muitos Colleges não universitários americanos):
a um primeiro nível, diplomados com formação científica e
técnica sólida mas ampla, capacidade de aplicabilidade prática
desses conhecimentos, de planeamento de projectos sem grande complexidade, avaliação
crítica dos progressos tecnológicos; a um segundo nível, conhecimento
técnico e científico aprofundado com noção do avanço
das fronteiras do conhecimento, originalidade na aplicação dos conhecimentos,
avaliação de novas metodologias e capacidade de apresentar propostas
inovadoras. E, em ambos os casos, as já referidas competências transversais,
com relevo para a iniciativa, responsabilidade e liderança, no segundo caso.
É consensual que as estes dois níveis correspondem, respectivamente,
os graus B e M. A questão está em saber qual a duração típica
dos estudos em cada um deles. Como se viu, a tendência é 3+2. O CRUP
propõe 4+1 (na linha profissionalizante, como o das engenharias) ou 4+2
(na linha académica do mestrado tradicional. Esta proposta só me parece
ser trabalhável se fundamentada num estudo aprofundado dos "outcomes" desejáveis,
nas nossas condições específicas, em termos de ajustamento às
exigências actuais e previsivelmente futuras do mercado de trabalho.
Para além de outra literatura disponível, sugiro ao CRUP que divulgue
pelas universidades o exce-lente documento sobre este assunto que é o "The
framework for higher education qualifications in England, Wales and Northern
Ireland", da UK Quality Assurance Agency, bem como os "benchmark statements" que
a UKQAA já elaborou para 22 áreas programáticas, a nível
de "bachelor with honors". É um bom exemplo do que a reunião
de Praga considera dever ser "the development of a common framework of qualifications".
No entanto, o grau B, ao contrário do que se pode depreender da Declaração
de Bolonha, não é só um grau com valor de empregabilidade. A posição
do CRUP não é explícita a este respeito, mas creio que aponta
para a formatação do grau B também como simples acesso ao grau
M, sem objectivos específicos de profissionalização, principalmente
quando o grau M tem objectivos principais científicos e académicos.
A declaração de Bolonha não o exclui e isto faz parte da tese
8 da Convenção de Salamanca, em que estiveram presentes os reitores
portugueses. É um objectivo que também consta das conclusões da
reunião de Helsínquia sobre o grau de "bachelor" e que foi
reproduzido textualmente pelo comunicado da reunião de Praga: "programmes
leading to a degree may, and indeed should, have different orientations and various
profiles in order to accommodate a diversity of individual, academic and labour
market needs". É claro que isto complica a definição dos "outcomes" e
torna urgente o debate sobre esta questão.
Outro aspecto em que a posição do CRUP é críptica é no
que se refere à diversidade de graus nos dois subsistemas, considerando,
no ponto 4, que é matéria em que necessita de orientação
política. Se por orientação política se entende a simples
decisão do Ministério, discordo. Penso que é um assunto a merecer
um amplo debate, que desbloqueie a nossa noção, pelo menos de facto,
de que universidades e politécnico têm níveis diferentes, com
reserva de graus para um ou outro dos subsistemas. Julgo que a diferença
deve ser apenas vocacional e de perfis de "outcomes" educacionais,
como é regra na maioria dos sistemas binários europeus. Por isto, ao
defender a existência de mestrados com vocação profissionalizante,
nada me impede de admitir que eles também possam ser conferidos pelo politécnico. É nesta
linha que, no livro que referi, defendo, contra a lei do ordenamento, a possibilidade
de grande interpenetração dos dois sistemas, havendo escolas politécnicas
nas universidades e faculdades nos institutos politécnicos. Desde que, obviamente,
o nível de qualificação científica do pessoal docente num
e noutro sistema sejam equivalentes, o que não é o caso entre nós.
Não pretendendo que a Posição do CRUP seja exaustiva, refiro a
omissão da necessidade de mecanismos de transição entre programas
de grau B e grau M, mais problemática quando têm objectivos diferentes
(profissionalizante ou científico) e entre universidades e politécnico,
com promoção da interdisciplinaridade.
5. O sistema de créditos
A posição do CRUP reconhece a necessidade de "um sistema compatível
de créditos baseados no ECTS e no Suplemento de Diploma". Mas não
faz nenhuma proposta concreta nesse sentido, apesar de me constar que a introdução
do sistema ECTS é um assunto em agenda no CRUP mas não, ao que sei,
o Suplemento de Diploma, hoje já vulgar em diversos países europeus.
É também uma das matérias em que estamos com atraso considerável
em relação à maioria dos países signatários de Bolonha.
O sistema ECTS é já largamente utilizado no Reino Unido, é obrigatório
nos novos cursos de bacharelato e mestrado da Áustria, Alemanha e Itália
e está a ser introduzido na Dinamarca, na França, na Polónia e
na Holanda. Outros países, como os bálticos e os escandinavos, a Finlândia,
a Bélgica flamenga ou a Irlanda, têm sistemas de créditos baseados
no "work load" do estudante e portanto rápida e facilmente convertíveis
em créditos do ECTS.
Como sabemos, apesar de termos um sistema de créditos, a introdução
do sistema ECTS não será um trabalho linear, porque o sistema ECTS é radicalmente
diferente do nosso actual sistema de créditos, que se baseia exclusivamente
na carga docente em vez da medida da aprendizagem. Será importante que não
se faça nas universidades portuguesas aquilo de que já ouvi falar:
pura e simplesmente a aplicação de uma fórmula de conversão
automática dos nossos créditos actuais em créditos ECTS. Como
se viu, seria converter alhos em bugalhos. São espertezas destas, à moda
do nosso "desenrascanço", que nos retiram a credibilidade e que
nos podem marginalizar no processo de mudança do sistema universitário
europeu.
A título de exemplo, refiro a proposta de um novo mestrado em Microbiologia
do meu instituto, o Instituto de Higiene e Medicina Tropical, da Universidade
Nova de Lisboa, em que foram atribuídos créditos ECTS a todas as unidades
curriculares, incluindo tutoriais, seminários e estágios, com base
numa distribuição criteriosa dos 60 créditos anuais em função
da carga de aprendizagem prevista. É interessante verificar, neste exemplo
da minha iniciativa que posso divulgar, como a distribuição de créditos
ECTS fica completamente diferente da distribuição dos créditos
nacionais.
6. A acreditação
A declaração de Bolonha estipula como objectivo a "promoção
da cooperação europeia na garantia de qualidade com vista ao desenvolvimento
de critérios e metodologias comparáveis" mas é omissa em
relação ao processo que tende a estar associado à avaliação
e que é a acreditação. Mas já as conclusões da convenção
de Salamanca propõem uma plataforma europeia de avaliação com
funções também de aconselhamento dos órgãos nacionais
de acreditação. O comunicado de Praga já se refere à acreditação,
encorajando uma colaboração estreita entre as redes de avaliação
e de acreditação. Como é bem sabido, a acreditação é um
factor importante da empregabilidade, um objectivo central de Bolonha.
Por isto, é de estranhar a omissão da posição do CRUP quanto
a este assunto, tanto mais que está em discussão um projecto de decreto-lei
de regulamentação da criação de cursos e a acreditação é hoje
uma das opções que se colocam internacionalmente em relação à regulação
das ofertas educativas.
O sistema previsto neste projecto de decreto-lei é, a meu ver, um projecto
claramente estatizante, limitativo da autonomia universitária e com o risco
de limitações burocráticas das experiências de diversificação
e inovação que enriquecem o sistema universitário.
A regulação da oferta de novos cursos tem dois extremos – a simples
regulação pelo mercado e pela procura de alunos, como é típico
dos Estados Unidos, ou a aprovação pelo Estado da criação
de novos cursos, como se passa na maioria dos países europeus. No entanto,
esta aprovação não é obrigatoriamente da competência
directa do Governo, podendo competir, num número significativo de países,
a entidades independentes sob a supervisão do Governo.
Mesmo nos Estados Unidos, onde imperam as leis do mercado, é vulgar as universidades
procurarem acreditação para os seus cursos, existindo diversas agências
de acreditação bem estabelecidas, por exemplo, para as engenharias
(ABET – "Accreditation Board for Engineering and Technology")
ou para os cursos de gestão, incluindo os MBA (AACSB – "American
Accreditation Agency for Business management Education" ou AMBA – "Association
of MBAs"). Algumas destas agências já fazem também a acreditação
internacional de cursos de universidades europeias, bem como, muito frequentemente,
das universidades dos "tigres da Ásia".
Na Europa, a tendência para a acreditação por agências independentes é crescente,
não só a nível nacional mas também internacional. Ela está bem
estabelecida, por exemplo, na Inglaterra, na Irlanda, na Suécia, na Finlândia
e nos países de leste e, mais recentemente, está em lançamento
na Alemanha e na Holanda, assim como é proposta no relatório Bricall
na Espanha. Em alguns destes países, nomeadamente nas novas experiências,
a acreditação vale como aprovação e reconhecimento nacional
da criação de um curso, sem necessidade de aprovação ministerial.
Como exemplos de iniciativas europeias supra-nacionais, os reitores conhecem
certamente o sistema EQUIS de acreditação de cursos de gestão
pela Fundação Europeia para o Desenvolvimento da Gestão (EFMD),
o projecto ECIU/EQR do Consórcio Europeu das Universidades Inovativas, a
que pertence a Universidade de Aveiro, e o projecto da CRE de um quadro de referência
dos sistemas de acreditação.
Tendo em conta todas estas tendências e toda uma discussão sobre este
assunto que faço no meu livro, entendo que a proposta de decreto-lei do
Ministério é inaceitável, como exemplo de uma excessiva intervenção
governamental na regulação da oferta de cursos. De acordo com a tendência
de ligação da acreditação à avaliação e considerando
que o nosso sistema de avaliação é dos mais aperfeiçoados
da Europa, julgo que o CNAVES, eventualmente reformado para maior participação
dos “stakeholders” da universidade, devia ter também funções
de acreditação, sendo este o mecanismo principal de regulação
das ofertas educativas, num sistema de mercado informado e orientado.
7. Nota final
Quero relativizar, em relação à Posição do CRUP,
muitas das considerações aqui feitas e que podem ser tomadas como críticas.
Compreendo que a Posição é um documento sintético e que não
podia abarcar o enorme leque de problemas suscitado pelo processo de Bolonha.
Longe de mim pensar que os reitores das universidades portuguesas não estejam
tanto ou mais informados do que eu e não estejam a reflectir sobre essas
questões. Por isto, as minhas considerações não pretendem
significar que o CRUP esteja alheio desses problemas. Creio é que não
tem conseguido mobilizar as universidades para esse debate, que hoje é de
claro significado estratégico e condicionador do futuro do sistema de ensino
superior. Estas considerações querem apenas serem um estímulo,
pessoal e modesto, para um debate que atravessa toda a Europa e de que a universidade
portuguesa tem estado alheia.
26.5.2001
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