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A UNIVERSIDADE NO QUADRO DA SOCIEDADE
DO CONHECIMENTO E DA GLOBALIZAÇÃO
João Vasconcelos Costa
O mundo de hoje confronta-se com mutações sociais aceleradíssimas
que quase configuram novos paradigmas civilizacionais. A revolução
industrial foi alimentada pelo capital físico: as fábricas, as
máquinas, a força física dos operários, os meios de transporte.
A partir de meados do século XX, a tendência virou-se para as coisas
e serviços, os operários deixaram de ser peças animadas de
uma linha de montagem e passaram a ter que dar resposta às mais variadas
solicitações, tanto dos patrões como dos clientes. Neste quadro,
pelo menos quatro factores determinam no essencial a mudança social
a que assistimos: a automação e a informatização dos
processos produtivos, o aumento explosivo da oferta (e, com ela, da procura)
de serviços, a tecnicização da administração das
pessoas, das coisas e dos processos, e a elevação do nível
educacional das populações, acrescido do acesso muito mais largo à informação.
O resultado por ora final desta evolução da idade industrial para
a idade da informação é a presente situação, com
uma mudança dramática da ênfase no capital físico para
o capital humano e intelectual. A vantagem competitiva de uma empresa deixou
de ser o capital físico e a força da produção, passou
a ser o capital humano e a rapidez de adaptação. Numa época
de preocupação com a preservação dos recursos e de grande
volatilidade das tecnologias, rapidamente tornadas obsoletas, o único
factor permanente de riqueza é o homem, a sua capacidade intelectual
e o seu conhecimento.
Com isto, dizer-se que vivemos hoje na sociedade do conhecimento e da informação é fórmula
que já não precisa de nenhuma discussão esclarecedora. Mas esta
fórmula pode conduzir a outra: a missão de hoje da universidade é alimentar
e sustentar a sociedade do conhecimento. Numa mudança determinada pela
informação e pelo conhecimento, a universidade tem um lugar particular.
O enorme aumento da frequência universitária é em parte consequência
do enriquecimento das populações, da aquisição de meios económicos
para maior satisfação da ambição de valorização
pessoal e de melhores perspectivas de trabalho, mais qualificado e mais remunerador.
Mas é também uma necessidade social objectiva, por exigência de
qualificação superior generalizada da mão de obra da economia
moderna.
Também em Portugal, abunda o capital financeiro, estão disponíveis
equipamentos e tecnologias importadas e as infra-estruturas têm tido grande
desenvolvimento, graças aos apoios comunitários. O que precisamos,
num país com com uma taxa de abandono de estudos antes de concluído
o ensino obrigatório de 46% e com uma taxa de 10% da população
activa com ensino superior, é de pessoas com formação adequada à adaptação
própria de tecnologia e ao domínio da teoria subjacente, com capacidade
de iniciativa e de correr riscos e, fundamentalmente, com alto potencial de inovação.
A outra faceta da actual sociedade do conhecimento é a globalização,
que ultrapassa o económico e tecnológico, abrange o desenvolvimento
humano, o ambiente, as condições de vida, as expectativas sociais e
os valores individuais e societais. Com os riscos de maior exclusão que
traz, requer elites dispostas a criar condições de aprendizagem e domínio
do conhecimento para toda a gente, mentes preparadas para este novo ordenamento
das sociedades e do mundo.
A globalização é a mundialização dos mercados, com novas
exigências e factores de competitividade. É a imensidão dos lugares
acessíveis e a instantaneidade da presença dos acontecimentos, com
a possibilidade de negócios e de gestão de empresas em qualquer parte
do mundo em tempo real. O novo paradigma da competitividade baseia-se na circulação
e apropriação da informação e do conhecimento em tempo útil.
Ficam progressivamente excluídos todos, a todos os níveis (empresas,
regiões, países), que não forem capazes de mobilizar os seus recursos
humanos, os seus conhecimentos e competências.
O papel individual na competitividade a todos os níveis é fundamental,
sem negar a importância dos factores colectivos e organizacionais. Mas este
papel não se ensina, pratica-se com base nas competências, atitudes
e comportamentos que dependem de um novo paradigma da educação, em
particular da educação superior. Mas são valores individuais que
têm também que estar em compromisso com os da solidariedade social,
num quadro de globalização potencialmente favorecedor da exclusão,
nomeadamente os valores do espírito cooperativo, da sensibilidade contra
a exclusão e o sentido do interesse público.
O cidadão português, e em particular as elites sociais e económicas,
principais responsáveis pelo desenvolvimento e pela competitividade, devem
ser formados para serem capazes de se movimentarem bem no jogo internacional
da globalização, dominando as relações com outras culturas
e outras realidades, ao mesmo tempo que afirmam a nossa identidade própria.
Este novo e indispensável modo de ser português no mundo tem que nascer
nas nossas universidades.
A mundialização dos mercados e a hegemonia de uma visão mercantilista
neoliberal são uma ameaça para as universidades, que não podem
estar sujeitas apenas aos interesses do mercado. Elas têm uma função
social e cultural muito mais rica e complexa, têm responsabilidades de antecipação
em relação ao mercado (hoje determinado pelo curto prazo) e envolvem
valores e saberes afastados dos meros interesses económicos. A sobrevalorização
do mercado conduz à mercantilização do saber, da ciência
e da cultura, com tentação para as empresas de determinar a vida das
universidades (o que não significa que elas não sejam chamadas, como
parceiros ou "stakeholders" à governação das universidades)
e de transpor para a universidade critérios de desenvolvimento baseados
estritamente na rendibilidade económica. Mas também é verdade
que isto pode ter alguma cumplicidade dos universitários, arrastados por
toda uma retórica de ligação às empresas, bem como do Estado,
que aproveita como alibi as modas liberais para se desresponsabilizar.
Uma das riquezas tradicionais dos sistemas de ensino superior é a sua diversidade,
institucional, de missão e de perfil e programática. Esta diversidade
está posta em risco pela tendência uniformizadora da globalização,
nomeadamente pelos padrões americanos. Este risco, por exemplo, é patente
nas tentativas de desregulação nacional da educação no quadro
do GATS, embora muitas vozes, incluindo americanas, se oponham a essa desregulação.
O processo de Bolonha, se entendido como uniformização dos sistemas
nacionais europeus, padeceria do mesmo mal. Felizmente, tudo indica que não
se está a passar assim e que o objectivo da visibilidade e comparabilidade
dos sistemas está a respeitar a diversidade. Um espaço europeu ordenado é positivo,
como factor de desmarcação em relação à globalização,
afinal à americanização, mas respeitando e protegendo a diversidade,
donde nasce a criatividade. Nada mais perigoso para as universidades do que retirar-lhes
a sua especificidade e as suas diferenças, a forma de afirmarem a sua personalidade,
empenharem-se em experiências inovadoras e promoverem áreas de especialização
e excelência.
Todo este quadro novo de mudança social, com novos desafios, põe em
questão as missões tradicionais da universidade, embora sem uma rotura
radical. A maioria das universidades existentes foi criada num quadro de sociedade
industrial, numa conjuntura de ciência entendida como fonte de aplicação
tecnológica, de optimismo modernista, de desenvolvimento industrial tradicional
e de estado-providência. Foi uma época de maior atenção e
controlo da opinião pública sobre a acção do Estado, em que
era crescente a preocupação com a relevância e a utilidade social.
Daí uma tríade de missão que ainda caracteriza, no essencial,
as universidades actuais: investigação, ensino profissional, serviços.
Estes fins tradicionais precisam de ser vistos a outra luz na actual sociedade
da informação e do conhecimento, em que a missão múltipla
das universidades se pode caracterizar como ciência, formação
de competências e aptidões, educação ao longo da vida e promoção
da competitividade.
Esta nova formulação das missões das universidades não põe
radicalmente em causa os seus actuais objectivos mas exige que eles sejam cumpridos
com modernidade e grande qualidade. A procura tenderá a ser mais exigente
e a universidade, atingida nos últimos tempos pela massificação,
terá que estudar novas formas de ensino e organização para que
se possa manter a qualidade e a formação de elites. Na perspectiva
do ensino e da formação, requer-se que a universidade capacite as pessoas
para o desenvolvimento máximo das suas capacidades e para adaptação
permanente, ao longo da vida, às exigências do trabalho, porque o mercado
de emprego solicita hoje perfis de formação flexíveis e adequados à acelerada
mutação de qualificações e à necessidade de reconversões
tecnológicas rápidas. Na ciência, requer-se cada vez maior progresso
do conhecimento, mas também que este conhecimento beneficie a sociedade
e a economia, como factor de competitividade na globalização. No apoio
ao desenvolvimento, requer-se que a universidade sirva as necessidades de um
desenvolvimento regional e nacional sustentado, adaptável e com sentido
ecológico. Na formação geral das ideias, requer-se que a universidade
contribua para o desenho de uma nova sociedade de democracia real e participada,
civilizada e inclusiva. Pede-se-lhe por isto que aponte pistas para a solução
do grande problema de hoje das sociedades desenvolvidas que é a exclusão
social, começando logo por combatê-la no âmbito do alargamento
social do acesso à universidade, nomeadamente pela utilização
das novas tecnologias da informação e da comunicação.
Face a todas as mudanças sociais e económicas, as universidades devem
dar um contributo para o desenvolvimento da sociedade do conhecimento e para
a competitividade da economia e afirmação nacional no quadro da globalização
mediante três acções fundamentais: uma formação inicial
sólida e geral, mas com grande base científica teórica e aquisição
de novas competências; uma produção científica de alto nível
quantitativo e qualitativo, com relevância; e uma interacção eficaz
com o mundo social e económico, determinada em muito pela formação
contínua, actualização e especializaçao recorrente, além
do enraizamento regional.
As nossas universidades estão longe de cumprir estes requisitos e de corresponder
adequadamente aos novos desafios da sociedade do conhecimento. Os jovens que
elas formam ainda são, em grande parte, desprovidos de uma boa formação
cultural, no domínio científico, artístico e cultural e tecnológico,
com dificuldades de elaboração mental e de espírito crítico,
com reduzida capacidade de iniciativa e inovação, sem valorização ética
do esforço e do estudo e carecidos de espírito de empreendedorismo.
Assim, avulta a importância do que se pode chamar as novas formações.
A generalidade das nossas licenciaturas está organizada com o objectivo
de formar profissionais especializados. Com isto, multiplicou-se enormemente
o número de licenciaturas, com um perfil estreito de especialização.
No último quarto de século, passou-se das tradicionais dezenas de cursos
superiores para os actuais 490 (sem contar o politécnico). A justificação
da multiplicação de licenciaturas como se elas estivessem em correspondência
com a especialização do mundo laboral já não faz sentido.
A especialização do trabalho é um facto indiscutível, mas
a tal velocidade que a oferta de cursos especializados nunca conseguirá acompanhar
o ritmo dessa evolução. E acaba por ser uma especialização
sem efeitos práticos. Os jovens licenciados sabem bem pelo que passam quando
entram no seu primeiro emprego. Têm a sensação de que pouco do
que aprenderam lhes vai ser útil, de que têm que rapidamente fazer
toda uma aprendizagem prática e específica para desempenharem o seu
ofício. Esta concepção ainda dominante entre nós está em
dissonância com as realidades actuais. A licenciatura é cada vez mais
vista como o grau que fornece uma preparação científica e técnica
ampla, a chamada banda larga e, mais do que conhecimentos especializados, desenvolve
aptidões adequadas à grande diversidade das condições reais
do trabalho.
Para além de outros factores menos aceitáveis, que têm a ver com
jogos internos e desejos de afirmação pessoal ou grupal, a multiplicação
das nossas licenciaturas vive da ilusão da correspondência às
exigências do mercado de trabalho. O que é curioso é que a universidade,
ao mesmo tempo, parece ter uma grande arrogância. Preocupa-se com o mercado
de trabalho mas é ela que decide o que esse mercado quer e raramente o consulta.
Conhecem-se muitas licenciaturas que foram criadas sem nenhum estudo sério
da sua viabilidade e interesse prático. Fica-se depois admirado de, por
vezes, alguns cursos ficarem sem procura muito poucos anos depois da sua criação.
O que se pede às universidades é que treinem os licenciados para poderem
fazer a aprendizagem de inserção no trabalho o mais rápida e mais
eficientemente possível. E que lhes dê instrumentos para poderem fazer
o mesmo sempre que se lhes colocarem problemas concretos, sempre que tiverem
que adquirir novas informações e competências. O que se mede à entrada
no mercado de trabalho são mais aptidões que informações.
O que o mundo do trabalho pede à formação universitária é a
mentalidade científica e de rigor, a capacidade de raciocínio e de
análise, a imaginação criadora, a capacidade de continuar aprendendo,
a adaptação crítica a novas situações, a liderança
e a capacidade de condução de processos sociais, o domínio das
novas tecnologias da informação e, cada vez mais na era da globalização,
a capacidade de comunicação e o domínio de línguas. Pode-se
dizer como fórmula que se pede cada vez mais pessoas educadas que pessoas
instruídas. Não se esqueça também que a filosofia e utilidade
social da universidade implicam que o ensino não se pode só basear
numa perspectiva exclusiva de objectivos profissionalizantes. As universidades
também têm a obrigação de formar pessoas, prepará-las
para a vida e para a cidadania, treiná-las como futuros agentes privilegiados
do progresso social.
As especializações devem ser caracteristicamente sucedâneas da
formação de base de banda larga do primeiro grau universitário,
o que, no sentido do processo de Bolonha, treina e forma para a primeira inserção
no mundo do trabalho. Mestrados de orientação vocacional, além
da científica, variados tipos de cursos de actualização e reciclagem
e a aprendizagem ao longo da vida, de que falaremos, são formas diversas
de propiciar a adaptação dos quadros a novas situações e,
desejavelmente, devem articular-se com o exercício profissional, num modelo
de saídas e reentradas no sistema de ensino (tradicional ou à distância),
em especializações e actualizações sucessivas e ditadas pela
prática.
É verdade que isto é ainda muito tendencial e que as empresas têm
visões divididas. Nas respostas ao inquérito Dearing sobre o ensino
superior inglês (1997), as empresas tanto apontavam a necessidade de cientistas
e engenheiros com formação especializada como a de diplomados com formação
geral mas bem treinados em aptidões. Isto pode não ser contraditório,
porque estas duas pretensões do mercado de trabalho correspondem a duas
formações distintas. A de cientistas e especialistas a nível da
pós-graduação, do doutoramento e do mestrado, a formação
de banda larga a nível da licenciatura. Correspondem também, por outro
lado, às diferentes vocações formativas dos dois subsistemas de
ensino superior, o universitário e o politécnico.
É claro que não se deve confundir ensino de banda larga com superficialidade
ou falta de sentido prático. A formação científica, ainda
que larga, deve ser sólida e com boa articulação com a prática.
O que não pode é ser substituída pelo privilégio da informação
sobre instrumentos sem compreensão das suas bases teóricas, o que leva,
pela vida fora, a uma atitude de utilização acrítica e irracional
de novos instrumentos. No ensino de banda larga cabem as aplicações,
principalmente na perspectiva do ensino de projecto, mas elas são mais uma
exemplificação da teoria do que o objectivo essencial do ensino.
Anote-se que o ensino de banda larga, com ênfase nas competências, é um
desafio à qualificação dos docentes, nomeadamente no nosso caso,
em que a pirâmide está invertida, com grande maioria de professores
juniores. Ensinar em banda larga exige um grande "background" de saber-fazer,
seja na investigação, seja na actividade profissional. Só assim
se tem capacidade para se extrair da grande massa de informação o que é relevante
e contribui para a formação de competências e, por outro lado,
se transmite o testemunho do gosto pelo fazer e pela inovação. É uma
pedagogia muito mais exigente.
Pelo contrário, as características de tradicionalismo que ainda marcam
muitas das nossas licenciaturas são agravadas por deficiências frequentes
nos métodos pedagógicos. Os antigos ofícios aprendiam-se fazendo-se.
O mesmo se passa ainda hoje com o ofício de ensinar na universidade. Os
professores universitários não têm preparação pedagógica
inicial e mesmo ao longo da sua vida profissional raramente têm a oportunidade
de participar em cursos, seminários ou reuniões sobre pedagogia e métodos
de ensino. A pedagogia fica ao sabor de cada um, do seu instinto e dotes naturais
de comunicador.
E, no entanto, a pedagogia do ensino superior tem vindo a progredir imensamente,
com novos conceitos e novos métodos. Lembrando que as características
distintivas da aprendizagem superior são o desenvolvimento da compreensão
e a capacidade de aplicação de conhecimentos a situações
práticas variadas, pode-se resumir toda essa mudança numa fórmula
simples e muito significativa: o estudante como sujeito passivo do ensino é hoje
substituído pelo sujeito activo da aprendizagem. O ensino tradicional é muito
unidireccional. É a transmissão de conhecimento e informação
do professor para o estudante, que é simples receptor, muitas vezes mais
memorizador que compreensor. Na perspectiva moderna, exige-se uma grande participação
do aluno. Ele é activo na sua própria aprendizagem, estruturando racionalmente
os conhecimentos que vai adquirindo, entrelaçando o que lhe é transmitido
com o que ele próprio procura. Com isto, o ensino passa obrigatoriamente
a ser mais do que transmissão de conhecimento. É também o facultar
de processos e ferramentas para esse papel activo do estudante. Em síntese,
a atenção principal na acção educativa transfere-se, em grande
parte, do ensino para a aprendizagem. Mudou com isto o papel do professor. Mais
do que transmissor de conhecimento, é um facilitador da aprendizagem.
Esta tendência começa, já há muitos anos, pela simples verificação
de que o ensino é muito mais eficaz quando participado. É então
que começam a ver-se novos processos. As aulas passam a ser mais vivas e
mais apelativas, são entrecortadas com perguntas aos alunos, seguem rumos
diferentes conforme as respostas e a atitude dos alunos. Uma resposta suscita
uma informação adicional que suscita outra pergunta e esta outra resposta.
Terminam normalmente por uma breve revisão de síntese, coloquial, com
participação dos alunos. O professor passa a ter um papel mais difícil. É como
um actor quer tem que improvisar. Já não pode limitar-se a debitar
a matéria, tem que estar preparado para a todo o momento ter que reorientar
a aula, dar-lhe uma nova perspectiva. Uma pergunta chave é: entre nós,
em grande parte dos casos, o que é que uma aula teórica adianta sobre
a simples leitura de um livro? Até porque hoje, ainda em muitos casos, são
verdadeira sessões de leitura, já não do livro que era lido pelo
lente medieval, mas agora a leitura textual das transparências que são
projectadas.
Depois, a ênfase na aprendizagem activa é reforçada pela ideia
de que a formação completa e a mais necessária para se vencer
na vida activa já não é a do simples conhecimento ou compilação
de informação. É necessário desenvolver aptidões ("skills")
e comportamentos adequados. Não basta conhecer um texto, é preciso
saber criticá-lo e extrair o seu significado, é preciso que a leitura
dê indicações de como escrever. Isto é uma aptidão.
E é preciso gostar de ler e de usufruir de uma sensação estética.
Isto é um comportamento ou uma atitude. Esta nova visão da educação
radica também na ideia de que, mais importante que saber, é necessário
saber fazer. O ensino passa a dirigir-se a três esferas mentais do estudante.
Não só à cognitiva, com o saber tradicional, mas também à esfera
sensório-emotiva, isto é, à educação dos comportamentos
e atitudes, do saber ser e do saber estar, e à esfera psicomotora, a das
aptidões, do saber fazer. Nesta perspectiva, é cada vez mais utilizada
uma nova metodologia de ensino, em que o estudante aprende em módulos delimitados,
com um objectivo bem definido e em que a aprendizagem, em grupos interactivos,
tem por rumo a resolução de um problema. É o método de aprendizagem
por resolução de problemas, de que também há uma variante
menos avançada e mais adequada a certas matérias menos práticas,
o método da aprendizagem baseada em problemas. Mudou com isto o papel do
professor. Mais do que transmissor de conhecimento, é um facilitador da
aprendizagem.
Uma das novas atituides fundamentais requeridas é a capacidade de lidar
com a mudança. O ensino tradicional, repetitivo, tendente à rotina
e à perpetuação do conhecimento, está em contradição
também com a evolução rápida das teorias e dos conhecimentos
que lhes estão associados. As certezas definitivas estão abolidas e
a regra é a incerteza e a interrogação permanente. Isto compara-se
também com a atitude perante a saída universitária. Tradicionalmente,
a universidade preparava para uma situação estável e previsível,
com bom estatuto social e nível remuneratório elevado, em termos relativos.
Hoje, o diplomado da universidade confronta-se com a incerteza, dada a evolução
do mundo do trabalho, que ultrapassa as capacidades prospectivas da universidade.
Portanto, também neste aspecto, o estudante deve ser preparado para o imprevisível,
para a capacidade de iniciativa e de adaptação a novas situações,
para a aceitação do risco.
O segundo grande problema das universidades face aos desafios da sociedade da
informação tem a ver com a investigaçao que praticam, os seus
objectivos e relevância e, de forma mais geral, com o papel das universidades
na inovação e na promoção da competitividade, o que passa
pela questão das suas relações com o tecido sócio-económico,
em particular com as empresas. É matéria vastíssima, que ultrapassa
a dimensão aceitável deste texto. Fica para próximo artigo.
A terceira grande transformação das universidades que queiram ir a
par com as mudanças da sociedade do conhecimento tem a ver com a educação
recorrente e com a aprendizagem ao longo da vida ("life-long learning" ou
LLL). É um domínio fundamental da actividade universitária de
hoje, mas que ainda praticamente não existe entre nós.
Tradicionalmente, e ainda até há bem pouco, a universidade preparava
para toda a vida. A evolução dos conhecimentos era relativamente lenta
e as empresas eram estabelecidas sobre processos de produção ou funcionamento
e tecnologias de longa duração. O estudo universitário era limitado
no tempo, era uma fase bem definida da vida de cada um e era considerado praticamente
como definitivo. Esta situação mudou radicalmente. Não só já é praticamente
impossível, como discutimos, facultar preparações específicas
para toda a variedade de práticas profissionais como, principalmente, estas
formações ficam rapidamente ultrapassadas e necessitam de actualização
e mesmo de reconversão. A entrada no trabalho mostra logo aos jovens que
ainda têm que aprender verdadeiramente a sua profissão e que a base
de conhecimentos dessa profissão está a mudar tão rapidamente
que eles terão que estudar toda a vida.
Os jovens actuais vão competir a todo o tempo com novas gerações
cada vez melhor educadas e com maior actualização de conhecimentos
e vão ter que compensar continuamente, pela formação permanente,
este défice competitivo. Estima-se hoje que 15 a 20% do tempo profissional
terá que ser dedicado à formação permanente. Mas até há bem
pouco, a única possibilidade para o trabalhador se actualizar era frequentar
cursos nocturnos convencionais, em geral com grande sacrifício e desconforto
e exigindo uma grande motivação pessoal. Hoje é a universidade
que vai ao encontro do trabalhador, com ensino à distância geralmente
baseado nas tecnologias da informação ("e-learning"), porque
o estudante trabalhador não pode frequentar presencialmente as aulas durante
anos e anos, sujeito ao horário escolar normal que para ele é também
o horário de trabalho.
Por outro lado, a elevação do nível cultural geral, a maior apetência
pela cultura e pelo conhecimento, a pressão social da sociedade da informação
e a dinâmica da rede de informação em que nos movemos, conjugadas
com maior disponibilidade pessoal (encurtamento dos tempos de trabalho, reformas
antecipadas, etc.) fazem aparecer cada vez mais um outro género de procura
tardia da universidade, mais difuso e de tipo mais genérico, com motivações
desinteressadas de natureza estritamente cultural.
A universidade homogénea dos jovens na continuidade da fileira de estudos
pré-profissionais está a transformar-se cada vez mais numa universidade
heteróclita quanto ao seu público, com motivações diferentes
e com necessidades de resposta diferentes. Para jovens em formação
inicial, para adultos trabalhadores à procura de formações particulares
e especializadas, para outros com desejo de informação mais ecléctica
e diversificada mas sempre muito pessoalizada, as ofertas educativas, os conteúdos
e métodos de ensino e os seus veículos técnicos terão de
ser forçosamente muito diferentes.
O que se pretende hoje, na sociedade da informação e do conhecimento, é levar
a informação certa à pessoa certa no momento certo. A universidade
tem que mudar muito radicalmente para preencher este novo papel. No entanto,
isto não é imediato, porque a maioria dos professores ainda não
sente esta necessidade, mesmo no seu desempenho pedagógico tradicional.
No quadro das mudanças introduzidas pela revolução da informação,
o ensino formal é talvez um dos menos afectados pelas modernas tecnologias.
Os avanços da tecnologia revolucionaram as comunicações, os transportes,
a banca, a assistência médica, até toda a nossa vida quotidiana,
mas em muitos aspectos, os processos e métodos de ensino continuam os mesmos.
Os professores continuam a ser os mesmos debitadores de factos e informações
em frente dos alunos, numa tradição histórica que vem dos lentes
medievais, apesar de todas as vozes clarividentes que sempre defenderam que o
cultivar da capacidade de pensar é que é a verdadeira educação,
mais do que a simples transmissão temporal da informação.
Em conclusão,
A mudança está vertiginosa e inquietante. Entretanto, as universidades
vão perdendo tempo, viradas para dentro da sua autonomia e numa situação
aparentemente confortável de quem não corre riscos, sustentadas por
um poder público que também não as questiona. Mas correm riscos
e inevitáveis: a crescente ingovernabilidade estratégica e consequente
perda de competitividade, a diminuição do número de alunos e as
suas consequências no financiamento, a desadequação das formações
e consequente perda de relevância social e de prestígio, os desafios
do processo de Bolonha, a competição da educação transnacional.
O desafio é enorme. Nos próximos anos, sob pena de serem relegadas
para a categoria de instituições irrelevantes, as universidades vão
ter que adoptar padrões de qualidade elevados, assumir a competitividade,
pensar em novos conteúdos científicos do seu ensino, rever estratégias
e métodos de formação, adaptarem-se à mudança estrutural
dos seus públicos, propiciar meios de articulação da aprendizagem
na escola e no trabalho, ir de par com a crescente interdisciplinaridade, que
afecta também a sua organização, reconhecer e creditar para fins
de ensino formal as competências adquiridas em exercício, encontrar
formas empreendedoras de relacionamento com o meio social económico (universidades "entrepreneurial"),
recorrer crescentemente às tecnologias da informação com treino
adequado dos docentes. E muito mais.
A universidade não pode ser a do país que temos, mas sim a do país
que queremos. A questão é de saber se ela pode corresponder, nos seus
múltiplos aspectos (aprendizagem, investigação e produção
tecnológica, prospectiva, estudos sociais, intervenção cultural) às
necessidades de mudança da sociedade. E saber se o vai conseguir fazer com
antecipação, pelos seus meios e no quadro da sua autonomia ou se vai
ter que mudar por pressão exterior.
19.1.2002
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