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A UNIVERSIDADE: MISSÃO E CONSTRANGIMENTOS
João Vasconcelos Costa
Propõem-me que fale sobre as missões e constrangimentos das universidades:
- Quais as missões da universidade, como têm mudado ou vão ainda mudar,
a que pressões sociais e a que desafios estão sujeitas?
- Quais as respostas necessárias para vencer esses desafios, quais as constrições
a essas respostas e que soluções para ultrapassar essas constrições?
Durante séculos, a missão das universidades esteve assente em três
pilares: ciência, cultura e educação. No início do século
XIX, as reformas das universidades (napoleónica e humboldtiana) mudam radicalmente
a filosofia e estatuto da universidade, mas não mudam aqueles três pilares,
apesar da nova missão: a universidade como instrumento da construção
do Estado moderno, fornecendo os quadros do novo aparelho de Estado. A principal
mudança está na sua dependência em relação ao Estado. Perdem
autonomia, sujeitas a um quadro legal uniformizador e a controlo central estreito
no que respeita ao financiamento, à definição de programas e cursos
(situação em Portugal até 1974) e mesmo contratação de professores.
A uniformidade era a garantia de igualdade de oportunidades na competição
para o emprego público, na época o determinante, garantindo um mercado
nacional e moderno.
Começam a diferenciar-se três modelos: o napoleónico, com sentido
mais utilitarista, menor ênfase na investigação e na cultura (parcialmente
entregues a outras instituições -- Collège de France, Academia); o
humboldtiano, com o papel do Estado como garante da liberdade de ensinar e da liberdade
de aprender, da liberdade de pensamento e de crítica; o newmaniano, da universidade
inglesa, que mantém grande independência em relação ao Estado
e o carácter de universidade de elite, centrada na criação do saber,
formação cultural e sentido educativo lato (formaçao de "well educated
gentlemen"). As universidades americanas dessa geração, hoje as de elite,
mantém grande proximidade ao modelo inglês, mas, pela sua origem, com forte
ligação com a comunidade, o que se reflecte, por exemplo, na governação,
como veremos adiante.
Entretanto, a maioria das universidades actuais é criada numa época pós-industrial,
numa conjuntura de modernismo, ciência ligada à tecnologia, desenvolvimento
industrial e estado-providência. É uma época de maior atenção
e controlo da opinião pública sobre a acção do Estado, em que
é crescente a preocupação com a relevância e a utilidade social.
Daí uma nova tríade de missão: antes investigação, cultura,
formação, agora ensino profissional, investigação, serviços (repare-se
na inversão da ordem).
Com a massificação, isto tem como consequências algum prejuízo
dos valores culturais "puros", a vulnerabilidade ao mercado e seus interesses
imediatistas, a valorização dos contributos utilitários da universidade,
nomeadamente a investigação aplicada (com desvalorização da investigação
fundamental) e os serviços.
É a esta época que corresponde uma maior multiplicidade dos fins da universidade,
nem sempre facilmente congruentes, que chega até nós, por exemplo,
na listagem
de fins da universidade da OCDE (1987):
- Educação terciária
- Investigação
- Fornecimento de mão de obra qualificada
- Treino altamente especializado, prinicipalmente a nível de pós-graduação
- Fortalecimento da competitividade da economia
- Credenciação para emprego de alto nível
- Mobilidade social
- Serviços à comunidade
- Contribuição para as políticas nacionais
- Preparação para a liderança social
A esta complexidade, as universidades têm respondido muitas vezes com diversidade
de missões: universidades de ciência, universidades de ensino, universidades
empresariais ("entrepeneurial"), universidades de elite, universidades
de massas, universidades académicas, universidades vocacionais.
Pelo contrário, há grande uniformidade de missões nas universidades
portuguesas. Elas são fixadas na lei de bases e transcritas na lei da autonomia,
sem possibilidade de diversidade:
- A formação humana, cultural, científica e técnica;
- A investigação fundamental e aplicada;
- A prestação de serviços à comunidade;
- O intercâmbio cultural, científico e técnico;
- A cooperação internacional, com destaque para os PALOP e países
europeus.
Com excepção desta última, de carácter duvidosamente conjuntural
e ideológico, são caracteristicamente as missões próprias da
fase moderna (mas não actual) que temos estado a discutir. Repare-se na
ordem,
que aponta para a prioridade ao ensino.
Estas finalidades já não estão em correspondência com a situação
actual, principalmente devido à acelerada mutação social e às
novas características do capital humano, na sociedade da informação
e do conhecimento.
Citando o meu livro "A universidade no seu labirinto": A justificação
da formação profissional, com multiplicação de licenciaturas
como se elas estivessem em correspondência com a especialização do
mundo laboral já não faz sentido. A especialização do trabalho
é um facto indiscutível, mas a tal velocidade que a oferta de cursos especializados
nunca conseguirá acompanhar o ritmo dessa evolução. Esta concepção
ainda dominante entre nós está em dissonância com as realidades actuais.
O que se pede às universidades é que treinem os licenciados para poderem
fazer a aprendizagem de inserção no trabalho o mais rápida e mais
eficientemente possível. E que lhes dê instrumentos para poderem fazer
o mesmo sempre que se lhes colocarem problemas concretos, sempre que tiverem que
adquirir novas informações e competências. O que se mede à entrada
no mercado de trabalho são mais aptidões que informações. O que
o mundo do trabalho pede à formação universitária é a mentalidade
científica e de rigor, a capacidade de raciocínio e de análise, a
imaginação criadora, a capacidade de continuar aprendendo, a adaptação
crítica a novas situações, a liderança e a capacidade de condução
de processos sociais, o domínio das novas tecnologias da informação
e, cada vez mais na era da globalização, a capacidade de comunicação
e o domínio de línguas. Pode-se dizer como fórmula que se pede cada
vez mais pessoas educadas que pessoas instruídas. Não se esqueça também
que a filosofia e utilidade social da universidade implicam que o ensino não
se pode só basear numa perspectiva exclusiva de objectivos profissionalizantes.
As universidades também têm a obrigação de formar pessoas, prepará-las
para a vida e para a cidadania, treiná-las como futuros agentes privilegiados
do progresso social.
Podemos resumir a missão actual da universidade a uma fórmula geral: a
missão da universidade é alimentar a sociedade do conhecimento.
Donde,
para se continuar a falar de uma tríada de missão, que já vimos em
termos clássicos e em novos termos, ela põe-se em novíssimos termos: ciência, formação de competências e aptidões, educação
ao longo da vida.
Esta evolução tem posto, nos últimos anos, o sistema universitário
em questão, por múltiplos problemas: as mutações aceleradas no
mercado do trabalho e do emprego; a igualdade de oportunidades e combate à exclusão;
a competitividade individual e institucional; a relação custos-benefícios
para os indivíduos e a sociedade e as constrições ao financiamento
público; a diminuição da pressão demográfica mas o aparecimento
de novos públicos; a qualidade e relevância do ensino e investigação;
o balanço entre a formação cultural, a profissional e a formação
para a cidadania; o espaço europeu e processo de Bolonha; a competição
da educação transnacional; a educação ao longo da vida.
As universidades e os governos têm dado resposta a estes problemas e desafios
principalmente por quatro tendências marcantes:
- Reforço da autonomia e diversidade institucional e programática, mas
com maior envolvimento social e presença de representantes sociais no governo
das universidades;
- Diversificação das fontes de financiamento e aumento das propinas;
- Modernização da governação e da gestão, com "strategic
management" empresarial;
- Estímulos à competição das universidades no domínio da
inovação e da qualidade.
Pode Portugal renovar o seu sistema universitário ao longo destas linhas
tendencialmente consensuais? Com que constrições? Elas são múltiplas,
culturais, institucionais e organizacionais, financeiras, administrativas, de estatuto
de carreira. Mas acabam de derivar de duas fundamentais, uma relacionada com a autonomia
e financiamento e outra com a cultura organizacional e governação
Primeiro constrangimento: a autonomia e o financiamento.
A primeira constrição, paradoxalmente, é não haver constrições,
no que respeita à regulação. A lei da autonomia reserva para o Governo
a regulação de algumas matérias, como o acesso e o financiamento (mas,
de facto, como veremos, com grandes limitações), mas, no que respeita à
oferta educativa (e, indirectamente, ao financiamento, em função do número
de alunos), isto é, a criação de cursos, entrega-a totalmente às
universidades, à autorregulação.
É uma situação confortável: há liberdade das universidades
como num sistema de mercado mas não há verdadeiro mercado de educação,
a competição pelas privadas é irrelevante, o financiamento está
teoricamente assegurado e não há competição entre as universidades
públicas. É uma situação cómoda mas insustentável,
porque, além de tudo o mais e do desequilíbrio do sistema, é financeiramente
suicida para as universidades.
A oferta educativa está desajustada. Depois da fase de massificação
e de plena ocupação das universidades, assiste-se já à inversão
da relação vagas/concorrentes, com cursos de elite em que só entra
um número reduzido de alunos e cursos sem procura. Os números da primeira
fase de colocações 2001-2 indicam que só 78% das vagas a concurso
tiveram ocupação; só 239 em 490 cursos, menos de metade, ficaram totalmente
preenchidos, 144 (29%) ficaram a menos de 50%, 61 (12,5%) a menos de 20%, 10 cursos
ficaram só com um aluno e 4 com 0. Esta actual tendência, a agravar-se
certamente nos próximos anos, tem graves consequências:
1. Sendo o financiamento dependente do número de alunos, as universidades vão
ter que competir para a atracção de candidatos. Não se vê que
as pior colocadas estejam em condições de ganhar competitividade, nem estão
preparadas para isso. É problema com que nunca se confrontaram e não têm
experiência nem meios organizacionais para um pensamento estratégico e
para imaginarem soluções de competitividade.
2. O número de docentes com nomeação definitiva está herdado
de uma situação anterior de massificação e de plena ocupação
das universidades. É pessoal intocável. Mesmo o pessoal em situação
precária (professores auxiliares sem nomeação definitiva e assistentes)
não se vê que venha a diminuir e que haja despedimentos. A tendência
é para que este número de docentes - e o mesmo para os não docentes
- vai ser progressivamente excessivo se continuar a tendência para a diminuição
do número de alunos (agravado com o provável encurtamento dos cursos, decorrente
do processo de Bolonha). Como, paralelamente, se não mudarem a fórmula
ou os rácios, vai diminuir o financiamento, com base no número de alunos,
os custos de pessoal, que são fixos, vão representar uma fracção
cada vez maior do orçamento, com sérias dificuldades de orçamentação
do funcionamento.
É, portanto, necessária a regulação da oferta educativa, vista
também à luz do financiamento, com os objectivos de: garantia de
qualidade
e defesa do consumidor (condição de competitividade face a novas missões
e desafios); relevância (académica, cultural e social -- "outcomes" modernos);
combate ao desperdício e optimização de recursos.
A regulação compete tipicamente ao mercado ou ao Estado, sem prejuízo
de mecanismos híbridos, hoje já presentes na prática. O sistema português
de auto-regulação aproxima-se teoricamente de um mecanismo de mercado.
Sendo livres, devia ser, portanto, ao mercado que as universidades deviam atender
ao definirem o seu catálogo de ofertas educativas. Mas é um mercado viciado.
As universidades não têm mecanismos nem hábitos de avaliarem do ponto
de vista do mercado a criação de cursos. Por outro lado, nem precisam disto,
porque a venda dos produtos está assegurada, uma vez que todos os cursos são
financiados pelo Estado.
A inexorável regra do mercado que é a extinção dos produtos ou
serviços não competitivos não funciona no nosso sistema, porque o
financiamento assegurado e o conservadorismo universitário perpetuam experiências
irrelevantes do ponto de vista social e económico do mercado. Extinguir um curso
seria, tanto quanto sei, coisa inédita.
Há também factores adicionais de viciação: limitações
postas pelo sistema de acesso; o mercado protegido face às universidades privadas,
cujos cursos estão sujeitos à aprovação pelo Governo; a assimetria
de informação, em que os estudantes não têm informação
sobre o valor das ofertas; a importância da proximidade geográfica, dado
o custo de deslocação e instalação para fora do local de residência.
Na Europa, o financiamento público implica a regulação pelo Estado,
ainda em regra a cargo dos governos, se bem que se assista a uma retórica da
visão mercantilista, à maneira americana. Mas mesmo nos EUA, há crescentes
limitações ao mercado. Na Europa, ele não faz sentido, porque financiamento
é do Estado, não do mercado. Só faria se o Estado pagasse a oferta
educativa a preços de mercado, o que não acontece.
Em Portugal, que posições têm aparecido sobre a questão da regulação?
As universidades mantêm silêncio. O Governo, na sequência da lei do
ordenamento, provavelmente desejará chamá-la a si. Outros consideram um
mecanismo de regulação por acordo entre o Governo e o CRUP, o que me parece
que não alteraria substancialmente a situação. A minha posição
parte da desconfiança da burocracia, da concepção da concertação
como democracia participada e da necessidade de envolvimento dos parceiros sociais.
O modelo de regulação que proponho é uma posição
de hibridismo, mas começando por dar mais ênfase ao papel do Estado (mas
por via da contratualização) e deixando ao mercado só um papel
complementar.
1. o Estado deve fazer com as universidades públicas contratos de serviço
público abrangendo os cursos relevantes, com reflexos financeiros (a custos
reais);
2. o serviço público deve ser considerado em sentido amplo, inclusivamente
cultural, e não só determinado por motivações utilitaristas
e
relacionadas exclusivamente com o mercado de trabalho;
3. esta contratualização deve ter por base uma posição muito
determinante de um organismo independente, para evitar os erros de burocratismo inevitáveis
na acção da administração, especialmente a nossa; proponho que
este organismo seja um organismo de concertação, com representantes
do
Estado, das universidades e dos parceiros sociais.
4. a utilidade pública, nestes termos alargados, deve ser definida em função
da avaliação e consequente acreditação e de critérios políticos,
culturais e sociais de relevância (mais largos que a mera empregabilidade
e
interesses imediatistas do mercado);
5. mas, para garantia da maior diversidade e concorrencialidade das universidades,
elas podem ter iniciativas e ofertas para além do serviço público,
mas então sujeitas ao mercado e com financiamento dele decorrente (propinas
de valor real, como já hoje na pós-graduação);
6. a acreditação e a avaliação, base deste modelo porque só
cursos acreditados são contratados, são também factores de informação
e correcção dos vícios do mercado.
Este modelo tem óbvias implicações financeiras, porque propõe,
para os cursos acreditados e incluídos nos contratos de serviço público,
o financiamento a preços reais. Isto é, o Estado financia as universidades,
quanto ao contrato, por propinas de valor correspondente ao mercado, embora cobrando
aos estudantes apenas uma propina social, de valor reduzido. Diria melhor, no entanto,
preços quase reais, para não se manter a situação actual da fórmula
que contempla apenas o número de estudantes, premiando a falta de aproveitamento.
O financiamento deve ter também uma parcela por "outputs", dependende
da produtividade, baseada no número de diplomados (também um componente
do contrato de serviço público) e outros indicadores de qualidade e
produtividade.
Segundo constrangimento -- a ineficiência da governação
A segunda constrição deriva da cultura académica e institucional.
Apesar das diferenças de situação, origem e formação dos
professores, há uma cultura relativamente uniforme, com traços marcantes:
- uma ideia de universidade muito mais centrada no ensino do que na investigação
(para muitos, obrigação curricular);
- fragmentação e descentralização do poder, cabendo a cada universitário
um papel considerável na condução da vida da universidade;
- em consequência, grande importância da colegialidade na tomada de decisão,
com pouco relevo para a liderança e mesmo uma atitude de franca reserva em relação
aos poderes uninominais;
- individualismo, a tender para egoísmo, desinteresse institucional, o que contradiz
as características anteriores e por isso leva ao colapso de eficiência
da governação académica e colegial.
- um grande sentido de posse sobre a universidade, avesso ao seu controlo externo.
Esta última é a mais determinante porque leva à inércia, à
auto-satisfação e ao enquistamento. A participação de membros
externos na vida da universidade não é só simbólica de um reconhecimento
de que a legitimidade dos órgãos de governo da universidade não radica
apenas na autonomia da universidade e numa lógica corporativa, mas reconhece
que a universidade tem que ir também buscar legitimidade à sociedade de
que é um instrumento. Tem também valor prático, de confronto com outras
ideias e outras mentalidades, outras culturas organizacionais e uma visão isenta
e desinteressada das missões, desafios e constrangimentos.
Somos caso único na Europa na não obrigatoriedade de inclusão de externos
nos órgãos de governo da universidade e de esta poder ser governada apenas
pela comunidade académica. A lei da autonomia permite até 15% de membros
externos do senado, mas só 6 das 13 universidades (Minho, UTAD, Aveiro, Porto,
Beira Interior e Algarve) os incluem, e em alguns casos apenas em número simbólico.
Hoje, a participação dos parceiros sociais (os "stakeholders")
é já um novo paradigma da universidade. Representam a rede de interesses
sociais em que a universidade deve estar inserida e com a qual deve interagir. Pode
estar contra a visão humboldtiana e newmaniana -- e também, entre nós,
corporativa -- de que a missão da universidade é tanto melhor cumprida quanto
mais independentes das interferências económicas, sociais e políticas.
Se se vir os externos como tradutores do utilitarismo e do interesse do mercado,
como representantes dos "accionistas" da universidade, pode haver este
risco. Mas em regra cumprem é o papel anteriormente do Estado de garantir essa
não interferência ou de a pôr em moldes modernos: representação
larga e a longo prazo dos interesses sociais, com a visão de que a educação
é um bem público, com garantia dos valores nucleares da universidade, para
além dos interesses estreitos do mercado. Isto é notório no próprio
sistema de governação das universidades americanas, em que o risco de sujeição
aos interesses de mercado e utilitaristas seria teoricamente maior.
Este constrangimento de ordem cultural está intimamente ligado ao segundo constrangimento
fundamental que referi, isto é, a ineficiência da governação.
Os desafios actuais implicam respostas prontas e proactivas, políticas de qualidade,
competitividade, experiências inovadoras. Tudo isto exige pensamento
estratégico,
que as universidades não têm.
Voltando a citar o meu livro: É daí que vem o défice de eficiência
de gestão das universidades. Ele parece indiscutível, principalmente se
compararmos as universidades com outras organizações modernas, empresas
ou fundações e deriva de alguns factores fundamentais: da rede imbricada
de órgãos colectivos de dimensão inadequada, com numerosa representação
dos vários corpos universitários e sem base obrigatória de competência;
da colegialidade de órgãos que, pela sua natureza, deviam ser unipessoais;
das limitações impostas aos órgãos unipessoais, quando existem,
pelos sistemas de eleição e controlo; e da complexidade e falta de funcionalidade
dos mecanismos de participação na tomada de decisão. Acabam muitas
vezes por ser os reitores, quando para isso dotados, a preencher esse vazio de pensamento
estratégico, paradoxalmente se tivermos em vista a cultura universitária
de colegialidade e basismo. De facto, contra o parlamentarismo da "gestão democrática",
funciona o presidencialismo dos reitores.
Onde estão na universidade, as competências típicas do conselho de
administração de qualquer empresa?
- Quem decide da missão e imagem institucional?
- Quem faz a análise dos desafios, das janelas de oportunidade e das constrições
internas e externas?
- Quem elabora as políticas específicas, neste caso de ensino, de investigação,
de serviços à comunidade, de pessoal?
- Quem estabelece as prioridades?
- Quem define as estratégias?
- Quem acompanha e controla a acção dos executivos?
A lei da autonomia fixa rigidamente os órgãos de governo das universidades,
sendo necessário flexibilizá-la para que cada universidade encontre as
soluções organizativas que melhor se lhe adequam. Segundo a lei, essas
funções de governação competem aos senados. É geralmente
reconhecido que não as cumprem. São órgãos de grande dimensão,
quando se sabe que um órgão de governo, como um conselho de administração,
não pode ter mais do que 20 a 30 membros, permitindo-se discussões aprofundadas
em que todos participem. Com a dimensão actual, os senados funcionam com a lógica
que devem ter, nas outras organizações, as assembleias (electivas, homologadoras
de grandes decisões, com funções de acompanhamento do órgão
de governo).
Além disto, os senados não têm composição com base de competência,
traduzem visões grupais ou particulares, com falta de uma visão institucional
global e, muitas vezes, com manifesto desinteresse dos seus membros.
Também transposta para a governação das faculdades, a colegialidade
e o "basismo" mostram os mesmos vícios: conselhos científicos
de centenas de membros com competências deliberativas por vezes a exigir grande
base de competência especializada; direcções colegiais (conselhos
directivos) eleitas e sem unidade, também frequentemente sem base de compet
ência política e de gestão, em vez de directores uninominais, competentes
e responsáveis, com uma equipa coesa de subdirectores por eles propostos.
O nosso modelo tradicional ou académico-colegial caracteriza-se também
pela escolha electiva dos responsáveis a todos os níveis. Isto compete
a assembleias amplas e sem base de competência, em que a maioria dos membros
desconhece a teoria moderna da direcção e é incapaz de avaliar nesta
perspectiva os candidatos à eleição. O poder acaba frequentemente
por ser exercido por professores impreparados, desconhecedores do que é a gestão,
sem visão estratégica, incapazes de se afirmarem como líderes ou eleitos
sabendo à partida que vão jogar o jogo da conciliação e do
acomodamento
com os interesses que os elegeram.
Seguimos o modelo académico colegial tradicional. Começa a ser opinião
geral que ele estimula o corporativismo, tem capacidade reduzida de resposta pronta
aos desafios, não garante a eficiência da gestão, dificulta a capacidade
de definição de políticas e estratégias e não facilita a
sua concretização numa acção de direcção forte e coerente.
Mas não só seguimos um modelo colegial que pode ser visto como uma excepção
em relação à teoria geral das organizações como até,
levando-o ao extremo, o tornamos ainda mais ineficiente.
Contra este modelo tradicional, há o modelo empresarial ou "corporate"
americano (embora prefira chamar-lhe profissional -- nos EUA ele não tem origem
empresarial, mas comunitária) e hoje da quase totalidade das universidades
inglesas.
Ele define-se por:
- conselhos de governo ("boards of trustees" ou "boards of governors")
reduzidos, compostos exclusivamente ou maioritariamente por membros externos, desempenhando
o poder máximo de governo da universidade (orçamentos, definição
de politicas, criação de programas, abertura de vagas para contratação,
etc),
- senado representativo da comunidade académica, mas de carácter consultivo,
- valorização dos orgãos unipessoais,
- lógica de nomeação dos executivos, com base de competência.
Na nossa tradição, e com as especificidades da universidade, não parece
viável pacificamente a introdução deste modelo, devendo adoptar-se
um modelo intermédio. É o que se tem passado, nos últimos anos, nos
países escandinavos, França, Espanha, Suécia, ou Suíça.
A excepção é a Holanda, que foi para um modelo tipicamente profissional,
com um pequeno conselho de curadores nomeado pelo Governo, com competências
políticas muito largas, incluindo a nomeação do reitor.
Aliás, a tendência para um sistema híbrido também está a
ser discutida em muitas universidades americanas e inglesas, pretendendo-se envolver
mais na governação os órgãos colegiais representativos da comunidade
académica, num sistema de governação partilhada ("shared governance").
Entendo e defendo esta noção de governação partilhada como significando
que os conselhos de governo são os centros de decisão, mas num processo
interactivo com os órgãos representativos da opinião colectiva. Actuam
no princípio e no fim do processo de decisão. No princípio, levantando
as questões, formulando hipóteses de trabalho e propondo opções,
que devem ser depois largamente discutidas a todos os níveis da universidade
ou da faculdade. No fim, compilando os resultados deste debate, pesando as objecções
e potenciais resistências e tomando a decisão final, a desenvolver na prática
pela direcção.
Sem violar a nossa lei de autonomia, pode-se criar um conselho de governo como
emanação
do senado. Um bom exemplo, mas único, é o dos novos estatutos da U. Porto,
que atribuem explicitamente as funções de governação a uma pequena
secção permanente do senado, incluindo membros externos, deixando para
o plenário as funções que atrás referi como típicas
de assembleia.
Em alternativa, propus no meu livro a criação de conselhos de governo autónomos,
com um máximo de 30 membros, incluindo os directores de faculdade (cargo cuja
criação defendo, onde não existe) e sendo os restantes membros metade
eleitos pelo senado e metade membros externos. As funções do conselho
e
do senado poderiam ser, por exemplo:
- Conselho: política, orçamento, estratégias, criação de
programas e organismos, "follow up" da avaliação, linhas gerais
da política de gestão de pessoal, homologação da escolha
dos
directores de faculdade.
- Senado: eleição do reitor (com intervenção do conselho, por
exemplo, examinando as candidaturas, entrevistando os candidatos e propondo uma "short
list" ao senado, com relatório), matérias académicas, homologação
das grandes linhas de política do conselho, acompanhamento da sua actividade,
propostas ao conselho.
Uma questão que se coloca é a dos critérios que devem presidir à
escolha dos membros internos, que têm a ver com uma forte base de competência
política e estratégica. São qualidades que não se seleccionam
por eleição, mas, no entanto, não parece haver forma, na perspectiva
de compromisso, de se fugir a uma legitimação eleitoral, designadamente
pelo senado. A princípio, pode haver desajustamentos no perfil dos membros eleitos,
mas a prática e a interiorização do papel e requisitos de um conselho
de governo acabará por dar aos eleitores uma melhor visão dos factores
que devem pesar na eleição. Ainda por cima, na prática, o seu papel
é muito importante, porque, ao contrário dos membros por inerência,
os directores de faculdade, e dos membros externos, são eles os que estão
mais disponíveis para tarefas essenciais como a preparação de propostas
de trabalho, de relatórios, ou a animação de grupos de trabalho ad
hoc ou "think tanks".
Também a selecção de membros externos tem problemas. Nos dois casos
de conselhos de governo portugueses (dois institutos da UNL), eles são escolhidos
em função de cargos específicos em entidades relacionadas com os institutos.
É discutível que seja a melhor solução ou que seja facilmente
adaptável a nível central da universidade. Altos funcionários ou representantes
institucionais podem ter conflito de interesses e pouca disponibilidade para os assuntos
da universidade. Ao estilo anglo-americano, é preferível que os membros
externos sejam escolhidos pelo seu mérito individual e que estejam em condições
de independência para uma grande dedicação institucional à universidade,
que sintam isto como uma honra e um dever. Podem ser pessoas seleccionadas pelo reitor
ou pelo senado (ou por ambos) ou então, como se faz em muitos casos, cooptados
pelos restantes membros do conselho de governo.
Estas propostas são meramente exemplificativas, sem o que estaria a contradizer
o que defendi ser a autonomia de cada universidade na escolha do seu formato institucional.
Os exemplos estrangeiros mostram uma larga gama de opções quanto à
estrutura e funcionamento dos órgãos de gestão das universidades.
Como em outros países, provavelmente o mais sensato e eficaz é um processo
progressivo de transição do nosso modelo estritamente colegial para um
modelo profissional e que respeite tanto quanto possível, sem desvirtuar o modelo,
as normas consagradas de representação e participação, embora
corrigindo-as para que elas tenham valor real e eficiência. Haverá que
pesar os fortes entraves culturais a esta mudança e marcar um ritmo de mudança
que não seja culturalmente traumático, mas também não tão
lento que a universidade portuguesa se vá cada vez mais afastando de uma tendência
de reorganização das universidades que está na ordem do dia.
7.12.2001
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